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o mundo quieto

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O Segundo Movimento #3

Como descrever os primeiros dias, senão de normal acanhamento, uma vontade expressa de não invadir o espaço contrário, ainda que se estudassem em permanência os ritmos e hábitos de cada um. Foram vários os dias em que os encontros se resumiram à refeição ou a um raro e ocasional cruzar pela grande escada bifurcada, quando em horários quase sempre desencontrados um descia e outro subia. Era a ideia que ficava, a de estarem sempre em direções opostas. Artur fingia concentrar-se às primeiras horas do dia, rascunhava algumas ideias como quem pica o ponto, repetia frases que conhecia de cor apenas para ver crescer a mancha de tinta na alvura das folhas e sentir-se a produzir algo, ainda que apenas fossem cópias mentais, um disco cuja audição se repete, que não entusiasma mas que também não aborrece, uma absorta condição de passar pelo tempo, e por vários momentos se exasperava; se os dois meses fossem apenas um fogacho do incêndio que idealizara, o que fazia ele ali? Mas as manhãs avançavam e quanto mais perto da hora do almoço maiores as probabilidades de encontrar Vera. Acordava tarde, já o sabia, tal como previra. Dava por si a fazer uns passeios em volta do solar por essa hora. Ao rodar para os jardins traseiros, fingia contemplar os ornamentos do zimbório, fixando o olhar na sua janela. A posição das cortinas revelava se já havia acordado. Os passeios tornaram-se cada vez mais longos e lentos. Adentrava os caminhos intricados entre os frondosos castanheiros, e pelas abertas dos salgueiros esperava qualquer sinal da sua janela festonada. Fazia cálculos tão pobres e desesperados que se resumiam a um «se já acordou há quarenta minutos, por que razão não sai ela? Não abre sequer uma janela? Estará a escrever?», e rodava ao final da propriedade, junto a umas toscas construções que haviam servido em tempo de cavalariças, para regressar novamente. Nestes passeios cruzava-se demasiadas vezes com o anfitrião da casa, e tentava sempre sorrir-lhe veemente, querendo ocultar do seu rosto qualquer laivo de criança atiçada pelo presente que ainda não pode abrir.

(excerto do livro de Vera L.)
Estamos na sala do piano. Um sexto andar próximo da Avenida da República. Cheira a urina de gata que por vezes surge a indagar quem de novo entrou. Sentamo-nos junto à janela. Lá fora já a tarde é escura. Não chove. Não há vento. Não chegam os sons da cidade ao último piso do prédio antigo, cuja entrada ainda conserva as paredes forradas a alcatifa dos anos sessenta e grandes castiçais empoeirados a comprovar o peso do tempo. Vamos chegando, apreensivos. Eu tento lidar com a pronunciada coincidência de existir um piano de cauda numa sala de psicoterapia. Tento lidar com o vocabulário desgarrado de uma psiquiatra que estudou piano, dedicada mais por teimosia do que por paixão, a desencaminhar os netos a estudar Hanon, Bach, Czerny; confidenciou-me um dia, já que os filhos nunca se interessaram pelo instrumento. Mas dizia que vamos chegando, e sentados num círculo junto à janela nos apresentamos e vamos segredando as maleitas que nos conduziram àquela sala. A estranheza que se repete em filmes é uma fábula de crianças face à realidade bruta que se respira neste tipo de encontros. «Aqui é a doer!», penso, enquanto meço palavras na minha apresentação. A doutora sabe que me aconchego para não alentar um pedantismo que me caracteriza, e logo afirma em voz alta a todos os outros que escrevo e toco piano, que não é crime, muito pelo contrário, que se o faço o deva admitir, que isso me torna maior, e que não esmoreça nesta falta de estima própria. Eu anuo, que sim, que tem razão, que até pode ser esta fome de querer fazer coisas que me consome por dentro e me desordene e me leve à lama de uma chuva que não me pertence. Entendo que este temporal me persegue há muitos anos. Mas antes tinha no álcool uma justificação, na conduta adolescente ainda havia espaço para clivar uma verdade a pedir explicações. Hoje o que me resta? Uma relação ocasional com o meu editor adúltero, dois livros resgatados ao sofrimento e longos dias prostrada, tirando as treze horas a dormir todas as noites. Os outros também falam de si. O jovem que fingiu frequentar três anos a universidade. Saía de casa primeiro de que os pais e voltava a entrar mais tarde para passar o dia a jogar consola. Três anos nisto. A assessora do ministro sem coragem para dizer ao mundo quão assediada e maltratada era. Nem mesmo ao seu marido, grande amigo do primeiro. O inspector da PJ obrigado a cumprir vários meses de terapia por quase ter levado à morte um suspeito com as suas próprias mãos, num longo e extenuante interrogatório. Descubro-me microscópica perante a gravidade alheia. «Isto não é para meninas», repito-me a pensar quando ouço alguém dizer que por duas vezes tentou o suicídio, dito com a ligeireza de quem descreveu por diversas vezes essas chamadas de atenção. Miro-lhe os pulsos. O corpo magro que outrora enchia as roupas que traz folgadas. Comprimidos. Para dar tempo. Uma chamada de última hora a alguém próximo e hospital com ela, para se limpar, e voltar a sair para repetir a encenação. É cruel esta vida. Chegarei até aqui, perguntei-me, enquanto lhe desisto dos olhos e do queixo tremente a puxar o choro. Não pactues. Não partilhes. O piano que me assombra. Porquê logo aqui um piano? E se ainda me tornar como ela, de pulsos imaculados, mas de estômago habituado a um festim químico? Apenas para agitar águas, uma pedra na vertical a mergulhar, pequenas ondas circulares atingindo primeiro os mais próximos até aos mais distantes. Outros dizem-se bem. Que a vida mudou para melhor. A doutora acende outro cigarro e afirma que as depressões são necessárias, que nos instigam a mudar, a ganhar coragem para enfrentar o que não está certo. Passamos a ser intervenientes daqueles passatempos mistério, a procurar em várias salas de um hotel o criminoso de uma velha rica. Nunca é quem se espera e por isso há que mexer na merda. Na merda que nos habita e se multiplica quando apenas tentamos encontrar saídas para o lixo que nos tolhe, e nos proíbe o discernimento de entender o que nos trouxe até aqui. Quando saímos, partilhamos o exíguo elevador. Seis andares em direção à terra feitos num silêncio que raspa vísceras. Separamo-nos à saída do prédio, tão acabrunhados quanto chegáramos e iludidos seguimos pelos passeios escuros, a pensar quem será o criminoso de uma história inventada seis pisos acima. E esmorecemos. Não temos respostas, menos ainda pistas para seguir. Quanto tempo nos irá custar esta charada? Seremos ágeis o suficiente para o malabarismo da ficção e realidade? Entro no metro. O odor a óleo quente característico dos carris afasta-me da acidez da urina de gato, do piano na ampla sala onde nos sentáramos a vasculhar no esterco. Esta transmutação requer destreza, movimentos agilizados característicos da fuga. Nisso somos bons. A adiar. E para amanhã deixamos o mistério, se por hoje sentimos que de mistério é a realidade em que vivemos.

Num dos jantares Vera estava particularmente alterada. Ouvia com dedicada atenção as formas reflexivas com que Artur se munia para criar os famosos labirintos nos seus livros, onde os vários caminhos abertos acabavam sempre por chegar a um ponto de confluência final. Escutava-o com um olhar trémulo, uma comoção latente que lhe fazia brilhar o negro dos olhos. Bebia vinho – era o primeiro jantar em que a via beber álcool – com uma velocidade improvável, mas em momento algum denunciou qualquer vacilação na sua postura atenta. Acabara por confessar-lhe que pouco havia escrito em todos aqueles dias já passados, uma página se tanto. Artur assentiu em concordância. Vera acrescentou que o mais difícil era aceitar que as histórias e a vontade de escrever existiam, mas que se resumiam aos acontecimentos da sua vida. Havia tentado a ficção no segundo romance, resultado que lhe fora totalmente exterior e impessoal. Entristecia-se ao entender que o rastilho da sua escrita encontrava-se sempre e apenas no que vivera, e que isso acabava por ser doloroso, pois se acordava todos os dias com vontade de mudar de vida, regredia sempre que escrevia. Uma contradição difícil de aceitar. E pousou finalmente a cabeça de lado sobre o seu punho fechado, num gesto de abandono físico, e uma aproximação a Artur que lhe parecera genuína e, dir-se-ia mesmo, cúmplice e bela.

Decidiram sair para um passeio nocturno. Artur aprontava-se para rodear o solar, ouvir o salpicar da água no repuxo das figuras míticas, o vento nas folhas das árvores a caminho das cavalariças, mas Vera retirara já do bolso a chave do seu automóvel abrindo-o à distância. Vendo a indecisão de Artur e sem estancar o passo sentenciou: «Por favor, passamos os dias aqui fechados. Vamos lá baixo ver o mar.» O porteiro abriu-lhes a cancela com um ar de surpresa, acenando-lhes por fim. O moderno Cooper revelava a sofisticação que completava a aura de Vera, mas ao levantar o volume da música, já após alguns metros em silêncio, o quadro baralhava-se novamente ao ouvir-se um concerto de piano de Rachmaninoff. As curvas eram acentuadas, desciam a serra em direção às faldas oceânicas, e parecia uma viagem sem um destino concreto, imersos no escuro que se interrompia apenas à sua passagem com os máximos ligados. Tudo era estático e fílmico, uma grande sequência de único plano a uma velocidade reduzida. «Fui pianista grande parte da minha vida, Artur.» O escritor virou o tronco na sua direção: «É a Vera a tocar?». Respondeu-lhe que não, que poucas pessoas podiam tocar assim Rachmaninoff, muito menos ela agora, depois do que acontecera. Artur concentrou-se no piano e queria muito perguntar-lhe o que era aquele ‘depois do que acontecera’, mas sem ousar, voltou a pousar o olhar na estrada. «Não é grande mistério. Há pessoas que ainda que toquem perfeitamente, não conseguem aguentar a exposição dos concertos. Sou uma delas. Embriagada a coisa corria, mas a responsabilidade aumentou demasiado. Comecei a falhar por várias vezes mas sempre pensei que se devia a falta de preparação ou estudo. À medida que forçava mais um concerto, forçava mais de mim e ainda mais do álcool. O esgotamento nervoso por se fazer aquilo que não se consegue tolheu-me como um comboio que nem tempo tem de abrandar antes de trucidar alguém parado na linha. Desde esse concerto que nunca mais toquei ao vivo, sendo que os últimos compassos foram tocados num sofrimento atroz, o vómito a subir-me à boca, um suor vertiginoso a toldar-me o equilíbrio. Ouvia ainda as palmas quando já estava na casa de banho a virar-me do avesso. Nos quatros dias seguintes não consegui dormir um minuto que fosse e soube finalmente que não estava bem.» A tonalidade passava a menor, o oboé confirmava a desolação, o piano agora em oitavas reforçava uma intenção de sofrimento, as cordas levantavam voo para logo se silenciarem.

Ao chegarem à linha da costa, deixaram-se ficar dentro do carro. As ondas batiam forte no quebra-mar e salpicavam o para-brisas como se chovesse. Ouviu-se em seguida outra obra, agora de Ravel. O segundo movimento do concerto de piano em Sol Maior. Artur identificou-o perfeitamente, suspirando a revelar que o conhecia bem. Vera sorriu: «Criei esta pasta de músicas só com os segundos movimentos de concertos de piano. Adágios e mais adágios. Principalmente neste de Ravel, há quase uma bipolaridade pela dissonância com os outros movimentos. No segundo movimento o compositor baixa a guarda, diz o que verdadeiramente interessa, concentra toda a sua energia e génio em dizer com a menor quantidade de notas o tanto que pretende. Tudo é medido com uma doçura plácida, um estado meditativo que parece perdurar nos tempos, um despudor em ser eloquente, triste e belo. É nesse estágio de quietude intemporal que tento viver agora.»

Artur fixava o seu rosto virado para o escuro do mar. Ouvi-la a falar pausadamente sobre a música que escutavam era um acontecimento tão inaudito que o arrebatava. Circundado pelo fogo de um desejo impossível, não sabia o que fazer com as mãos, estavam a mais no seu corpo todo ele ouvido e coração. Sentia a pulsação do sangue num frémito, gritava a uma só voz inaudível, amordaçado na sua idade. Tecendo um respeito religioso pelo sofrimento alheio era uma solução apenas temporária. Ousou cheirar-lhe o cabelo encaracoladíssimo mais de perto, fascinado e atraído, talvez até atraiçoado, pelo seu perfume; esse tesouro inacessível escondido nas vielas mais intrincadas e exíguas, mas que lhe chegava como uma chicotada de terror delicioso e insuportavelmente irresistível.

Vera sentiu-o aproximar-se de si. Olhou-o de modo complacente, e em silêncio, abanou a cabeça lentamente a dizer-lhe que não. O piano em trinado de notas terminou o segundo movimento do concerto de Ravel.

 

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