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o mundo quieto

o mundo quieto

O Segundo Movimento #2

Foi um encontro informal. Para além do jovem editor encontravam-se presentes alguns fotógrafos locais, o presidente da câmara, o atual diretor da casa e a outra escritora convidada. Não parecia ser nenhum rasgo publicitário pelo grupo editorial. Havia, sim, uma atmosfera de propaganda concertada, uma convergência de interesses de várias partes, onde os escritores, uma vez mais, serviam de macacos amestrados a exibir as suas habilidades exóticas.
Não conseguiu evitar um olhar mais demorado ao cumprimentar Vera S. Parecera-lhe ser mais baixa e magra do que aparentava nas fotos dos livros. Talvez pelo grande rosto e volume do cabelo encaracoladíssimo que se armava em volta da sua cabeça. O nariz não era bonito; o osso central largo como o de um pugilista. De resto tudo lhe era magnético. O negro dos olhos, as pestanas e grossas sobrancelhas que não precisavam do contraste da maquilhagem, e os lábios, muito largos e proeminentes, ainda que brilhantes por um batom de cor quase neutra, eram rubros o suficiente, como se tivessem acabado de ser mordidos com alguma força e recuperassem rapidamente o sangue. Vera S. era por fim uma mulher no corpo de uma adolescente, quase frágil. Vestia uma túnica preta e calçava umas botas de inspiração militar, que lhe conferia um classicismo urbano, uma excentricidade face à ocasião: estava e queria marcar uma ligação entre a sua pessoa e o que escrevia. E como seria ele aos seus olhos, pensava enquanto pousava desarticulado para uma foto de grupo. Os dois lado a lado, ao centro e em destaque.

A foto foi tirada à porta do solar, construção iniciada pelos princípios do século XIX e que deste então tem crescido até à forma atual; alcandorado na falésia atlântica, cuja paisagem se estende por ladeiras até ravinas recortadas, semeada de bosques e rochas cobertas de musgo, onde resistem aos ventos do mar velhos castanheiros em decomposição. Defronte ao portão principal, abre-se uma cascata em forma de leque, com nereidas sensuais envolvidas pelos longos cabelos de um gigante Tritão; as figuras incandescem com o sol a bater na alvura recuperada do mármore. O silêncio em volta confere aos repuxos uma melopeia plácida, típica dos jardins orientais. Sobe-se então pela escadaria central, que conduz a um varandim alpendrado, de largas ogivas. Daí é possível ver para além dos muros da propriedade o azul diáfano do oceano. Poltronas de verga convidam a finais de tarde aromatizados por chás de jasmim. A larga porta conduz diretamente ao salão principal, com ligações às cozinhas, salão de jogos, biblioteca e a largas janelas com pequenos varandins para os jardins traseiros. Onde nos anos 50 se mantinha um ringue de patinagem que também servia de corte de ténis, surgia agora uma piscina ladeada por deque escuro, construção moderníssima e dissonante de tudo o resto. Uma escada alcatifada bifurca-se para acesso ao piso superior, levando a um corredor comum, por onde se dividem para ambos os lados, os vários quartos.

Foi com espanto que ouviram do seu anfitrião que eram os primeiros hóspedes do solar, desde a sua reabilitação, e que, estando em época baixa, seriam também os únicos durante os dois meses de residência artística. Esperava-se com isso um aguçar de curiosidade pelas gentes de gosto requintado, para nesse mesmo verão, abrirem portas a plenos pulmões. Era a assunção da razão de ali estarem; engodo refinado. O solar teria sempre alguém na cozinha para os servir, e de noite, um vigilante ocuparia o posto de entrada. De resto, ele mesmo estaria ao dispor de ambos. «Reparei que trouxeram os vossos carros, mas sintam-se à vontade em pedir transporte para onde desejarem. A câmara assume viatura e condutor para qualquer deslocação ou visita guiada. Os vossos quartos serão os maiores do solar, as últimas portas ao fundo do corredor; cada um do seu lado. Devido à simetria da construção, nenhum ficará a perder para a melhor vista. Sintam-se em casa. Sei que vêm para trabalhar, mas, sinceramente, usufruam o máximo que puderem.» Uma mulher bisonha e imponente assomou a uma porta ao fundo, dando para a cozinha. O anfitrião, antes de desaparecer, pediu-lhes que deixassem as suas malas ali mesmo; seriam levadas assim que escolhessem os quartos de cada um.

«Esquerda ou direita?», pergunta Vera no patamar central da escada onde iniciava a bifurcação para o corredor dos quartos. «Certamente que não serei eu impor a minha vontade a uma senhora», respondeu-lhe Artur, investindo um ar de gentleman zombeteiro. A escritora abanou efusivamente a cabeça em negação fazendo balouçar o frondoso cabelo encaracolado. «Tudo errado. Vamos fazer isto como deve ser. Afinal, passaremos aqui dois meses. Vamos ver os dois quartos. Serão eles a escolher-nos». A desenvoltura com que tratava Artur deixara-o inesperadamente confortável. A escolha acabara por ser fácil, porque efetivamente, em nada se diferenciavam um do outro, mas aquele périplo à intimidade espacial que os aguardava gerava a ambos um tácito entusiasmo. Artur P. confessara que escrevia à mão, diretamente em papel, e sempre de manhã, pelo que um quarto virado a nascente lhe seria favorável. Vera acedera prontamente, pois adorava as sépias antigas e douradas dos poentes sobre os lençóis. Quanto às horas de escrita, não as tinha, e tanto podiam acontecer com o portátil na cama ao deitar como na espreguiçadeira da piscina ao sol do meio-dia.

(excerto do livro de Artur P.)

acho que me repito, mas só sopesando o quanto há ainda por descobrir, nasce esta vontade de escrever como se alguém me escutasse, e não havendo horas, eu pudesse a meu bel-prazer desvendar-me perante o desconhecido, não um eco da própria voz, prefiro imaginar um corpo com rosto, quase imóvel, a escutar-me com paixão (compaixão?)

sei que as palavras se amontoam, os discursos se sobrepõem, os diálogos empatam a fluidez da leitura, tudo quase a resumir-se a um grande ódio pela ordem, pelas coisas com nexo, a fazer sentido aos mais desatentos, não escrevo para os desatentos

- Não é para ti que escrevo

antes para mim próprio, para mim mesmo, nunca me decido qual a forma correta, e enquanto houver indecisões, este caos será uma casa onde ocasionalmente uma janela a mostrar-me

- Agora é aqui que vives

e eu aceito, como não aceitar, se já deambulei como quem procura perder-se de propósito, não gosto desse escuro que me traz a solidão, não sei o que fazer com o mundo, e com toda a certeza o mundo pouco saberá o que fazer comigo, porque afinal tanta gente, uns isto, outros aquilo

a sobrevivência é um depósito de promessas, quando alguma se concretiza, pulamos em frente, renovada lufada de ar, todo o corpo entusiasmado a gritar é por aqui, é por aqui, quando afinal tudo desarrumado cá dentro, as velhinhas peças que não encaixam

- Como encaixá-las se não pertencem umas às outras?

toda a probabilidade de erro ser sempre maior que a restante, uma balança viciada, acho que me repito neste ódio pelas coisas sem nexo, tanta gente e este escuro que só traz solidão, há vozes dentro de mim quando deveriam haver frases audíveis, pessoas de carne e osso a ouvirem-me, mas tanto erro no humano, se até os deuses

- Errámos todos. Apaga-se tudo e começa-se do início

é tarde agora, por isso os mantras, por isso a respiração, o faro a apurar-se para se evitar apuros, e quando digo apuros são anos inteiros a viver o que não se quer, quando apenas uma única vida com deuses a errarem na nossa crença

- Começa-se do início

um dia não haverá retorno, o fio de lucidez a esvanecer-se num suspiro e tantas moradas que já nenhuma para chamar de casa

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