O Segundo Movimento #1
Por momentos, julgara-se equivocado. O sol poente entrava pelas janelas rasgadas e conferia ao espaço uma imagem efabulada; todos os objectos pairando acima do chão, assim como os seus pés, que na relutância de quem duvida, caminharam como se levitasse num tapete de luz. Pensou que seria esta a forma mais digna de envelhecer; a de ganhar a possibilidade de fantasiar em qualquer ocasião, ou apenas esquecer-se dos espaços que já percorrera, e assim, qual menino, extasiar-se ingenuamente com imagens que revia como se fosse a primeira vez. Nunca a senilidade. Esse desgoverno guardava-se a quem não ocupando a mente, receberia o devido castigo como uma sentença irrevogável. Ele não chegaria a essa fase de espírito, parca condição existencial, pois se passara a vida inteira a derramar a sua vida em romances e ainda os escrevia, estaria a salvo desse afunilar de ideias e juízo.
Apresentava-se ao seu novo editor, um jovem afetado, e tanta coisa mudara desde o falecimento do seu antecessor, que até as horas vespertinas da reunião lhe soavam a pedantismo e a uma postura despicienda pelo ofício. Concluíra agora que nunca havia entrado naquela sala de tarde. Fora isso que o baralhara à chegada. Os livros discutiam-se e trabalhavam-se como a terra, e à moda antiga, bem cedo e antes que a cinza dos dias mundanos turvassem as ideias. Na pior das vezes, as reuniões terminavam com um almoço demorado, onde já não se regressava ao escritório. Aí sim, havia tempo para mais um uísque e dois dedos de conversa sobre este ou aquele lançamento, apenas para desanuviar. Todos os minutos tinham um peso incomensurável e por diversas vezes implicaram com os atrasos do designer, ainda que chegasse com o sorriso de quem vingara no trânsito caótico montado na sua assustadora e potente moto. Mas trazia-lhes sempre ideias capazes de lhes amainar os nervos; capas sóbrias e de suaves matizes, onde bastava timbrar em relevo o nome do autor, o seu nome, para se garantir uma anunciada e certificada qualidades literárias.
O ciclo chegara ao fim numa doença conhecida. Havia tempo, mas não muito tempo. O seu editor garantira a venda da chancela que há muito era namorada por um grande grupo editorial, visto consagrar no seu catálogo escritores europeus de sistematizada importância, premiados e ganhados a pulso, embora quase sempre subvalorizados como qualquer filósofo ou sociólogo respeitáveis. Eram as leis de uma esfera selvática, onde nos últimos anos vender livros era tudo menos vender histórias, ideias e pensamentos. Era um objecto passível de comércio, com custo, margem e lucro. A nível nacional, era aqui que ele se encontrava. Nos que vendiam poucos exemplares, ainda que com um público de leitores fiel e incansável pelo seu mundo imaginário. Permitiam-lhe viver e ter alguma dignidade nesse meio que cada vez mais se parecia a um horto descuidado, onde nasciam escritores como ervas daninhas em redor das roseiras de sempre.
Mas esta mudança de paradigma, onde abutres visionários pela derradeira história do século, que os levaria a vender um livro como algo irrepetível, afinal um objecto cansado e sem fôlego para perdurar no altar dos notáveis, passava-lhe longinquamente. Ele estava imune a essa sangria literária, demarcava-se cada vez mais das chamadas tendências históricas, e tecia em modo provocatório, de livro para livro, uma intrincada e exigente polifonia de vozes, sabendo desse modo estar a filtrar o ouro do seixo, o leitor incauto e preguiçoso do que homenageia a literatura como uma iguaria intelectual.
Enquanto apertava a pequena e fina mão do seu novo editor, era com todo este semblante que o fazia, assegurando pela raiz dos acontecimentos uma condição de elevação, colocando-se num território inalcançável, a que muito poucos têm acesso, ainda que lhe sorrisse com a maior educação e afabilidade. Seria, portanto, expectável alguma mesura no trato deste autor imaculado, que logo acabou por se sentir indevidamente reconhecido, formulando-se até na sua cabeça a pertinente questão de quantos livros seus havia aquele jovem lido.
O diálogo avançava entrecortado, galgos a medirem forças, desenhos de limites nas fronteiras de cada um, gestos moderados, anuíres inconvictos, receosas palavras. Mas apenas ao início. O editor garantia por fim a certeza de que a loja seria a mesma ainda que patrão diferente; poderia continuar (como se atrevia?) a escrever as suas polifonias de vozes, os seus labirintos poéticos, alguns desvarios numa estética um tanto difícil para o que estava em voga; enfim, nomeava-o arcaico e decrépito num mundo voraz prestes a engoli-lo. O escritor, chamemos-lhe apenas Artur, fitava-o como uma peça concebida para receber uma morte lenta e agonizante, tamanha a perfídia com que se lhe dirigia. Passaria a ser homem de ódios, ele que nunca se detivera em tais despeitos. Agora apertava as mãos como se se tratasse de um assassino a soldo, sem ponta de remorso, isento de escrúpulos. Toldava-se-lhe a consciência.
Claro que estava livre para mudar de editora, ainda que essa decisão fosse contrária a de todos os outros, pois estar num grupo editorial maior significava mais poder de infiltração no mercado e logo mais vendas. Não veria, afirmava presumido o novo editor, que tal ideia fosse sequer um assunto a discutir, ainda que estivesse obrigado, por mera formalidade, a informar-lhe dessa liberdade. Aliás, acrescentava, era tempo de mostrar ao tempo que era perfeitamente possível aglomerar numa única editora escritores comerciais dos, chamados, mais eruditos. E aqui chegava a sua proposta, como uma celebração e simultaneamente uma mensagem de unidade para todo o público em geral: juntar numa residência literária essas duas linhas de pensamento. Cruzar ou talvez colocar num ponto de partida igualitário essas distintas gerações, de idades e formas de pensar. Seria um resultado interessantíssimo para o público de todos ver e esperar com enorme expectativa os resultados finais.
Tinha-as escrito diversas vezes nos seus romances, situações improváveis que só com grande vontade de entrar na história se tornariam aceitáveis aos olhos do leitor. A velha máxima do ilusionismo: Concentra-te na magia. Porque quando tudo se desencaixa dos trilhos normalizados e se pisa terreno desconhecido, os nossos sentidos alertam-se, apuram-se a visão e a audição, e muito antes de se conseguir articular uma pergunta, proferir uma palavra que seja, existe tolhimento, paralisia, torpor. Era nesse estado que se mantinha sentado diante do seu novo editor, ouvindo-lhe agora o discurso desenvolto sobre a já aprovada residência artística, com data e local marcados, e com as máquinas da comunicação prontas a lançar a notícia para o mundo inteiro. O primeiro nome estava confirmado, faltava apenas a confirmação do seu. A segunda geração estava pronta e esperava ansiosamente pela primeira, a sua geração.
Não se desarmou ao ter como resposta o nome de uma mulher totalmente desconhecida, quando lhe perguntou, afinal, que escritor era esse da nova geração. «Uma jovem senhora», precisara o editor com o indicador estendido para o tecto, como se assim não houvessem mais dúvidas sobre quem se tratava. Não querendo dar conta da sua ignorância sobre o novo panorama de escritores do seu próprio país (como poderia ser de outro modo, se eram cada vez mais?), esboçou apenas um esgar, reacção que julgava a mais esperada pelo jovem arrivista, que logo tratou de lhe elucidar que a escritora em causa preparava o seu terceiro romance, com bolsa de criação atribuída, atestando um futuro fulgurante. O nosso escritor mostrou as palmas das mãos, encenando um sinal de rendição absoluta. Levantou-se, pediu-lhe um par de dias de reflexão e despediu-se dizendo-lhe que dificilmente a proposta seria aceite. Que cidade europeia, perguntou-lhe num súbito repente, como se induzido por um choque elétrico. «Ora, ora, caríssimo Artur, para que precisamos nós da Europa com o bonito país que temos; nada disso, será cá numa aldeia, alojados no meio da natureza, numa daquelas recuperações de fachada antiga de um velho solar» - respondeu o editor, pousando-lhe nas mãos, num gesto vagaroso, quase solene, um sobrescrito com todas as informações necessárias.
Voltou a sentir-se encadeado pelo sol poente cada vez mais queimado, o seu corpo de sessenta e dois anos parecia definhar de força naquela sala que se tornava finalmente irrespirável. Pisava brasas e quanto menos demorados fossem os seus passos em direcção à saída melhor. Mas o que verdadeiramente o incomodava era sentir já dentro de si a forte suspeita de aceitar o desafio. Prometeu-lhe sem grande convicção uma breve resposta e saiu em busca da primeira livraria que encontrasse.
Os dois livros ocupavam um lugar de destaque nas bancas centrais com a capa visível, em vez do lugar das prateleiras onde a fina largura das lombadas lhes daria o anonimato. Sentou-se num dos sofás disponíveis da livraria um tanto barulhenta para o seu gosto, e folheou os livros que quase lhe saltavam das mãos, parecendo vivos e confirmando o seu ímpeto de curiosidade. Queria ter a certeza de que essa segunda geração se matava a si mesma, redobrando-se em formas estafadas de escrita, anulando-se pela teimosia em escrever o acessível. Mas o que encontrou estava para lá do seu genuíno desejo. No primeiro livro, encontrara uma escrita quase confessional; longos ensaios diarísticos onde cruzava o quotidiano com questões profundas de existencialismo, usando um tom de proximidade, como alguém que nos fala ao ouvido. O segundo romance abria mesmo num despudorado diálogo corrido, lembrando os guiões de cinema, mais próximo portanto da conversação natural, conduzindo a leitura a um ritmo acelerado e contagiante. Ao contrário do que esperava, tinha diante de si uma boa escritora. Não precisava de ler os dois livros na íntegra. Sabe-se ao ler as primeiras páginas. Dirigiu-se para a fila da caixa para os comprar e enquanto esperava, pousou o olhar durante algum tempo na fotografia da escritora, colocada na contracapa. Os dois dias pareceram-lhe uma eternidade; mas obrigava-se a eles, não querendo mostrar, afinal, um súbito entusiasmo. Ligou para o jovem editor e, sem grandes explicações, informou que podia contar com ele.