Apontamentos #6
Deixar entrar a luz. Iluminar o gesto, a sombra a bater nas paredes. O movimento transido e a condenação do silêncio. Onde te cabe tanta tristeza nesse pulso trémulo? Na pele quase translúcida a denunciar finos rios azulados? Há a loucura das aves que te tenta, o voo raso à migalha, a expansão em arco quando o vento muda a favor. O belo de todas as coisas frágeis, quase dramáticas. Haverá sempre uma tarde fria onde inventar esta procura. E o que te fica do sol? Um halo intocável de minúsculas partículas douradas levitando diante dos olhos. Não tivesses certeza do silêncio e julgarias vozes a perfurar as janelas, a clamarem o teu nome do lado de fora. As pontas dos dedos encostadas ao vidro gelado. E a comoção a expandir-se desde a garganta como uma fonte a despontar de negras lajes. Enumeras objectos. Papéis amarrotados, um porta-chaves perdido da argola, um frasco minúsculo de perfume. São os despojos possíveis, ninharias, santuários portáteis. Quem fui eu nesta vida? E nesta? Como seria eu para guardar este amuleto desirmanado já da sua própria história? É tudo tão ofensivo nestes momentos. Entender que o pouco que sobra não é também suficente.