Apontamentos #4
A pianista Martha Argerich recorda-me dos corpos femininos de Paula Rego. Torso e membros largos. As mãos que completam os grossos antebraços, lembram um gigantismo de fábulas; dramáticos os nós que ligam os metacarpos às falanges proeminentes. Mas em todos esses corpos pressente-se um halo etéreo, uma silente magia por descobrir, que nos impele e ao mesmo tempo arrebata.
Depois acontece o movimento. E como alguém que tenha apertado o botão de um mecanismo oculto, as mesmas mãos esteticamente brutas revelam-se capazes da mais harmoniosa dança sobre as teclas, muitas vezes impiedosas e rudes, mas quase sempre delicadas e afectuosas. São mãos de mãe que tratam a ferida do filho que se magoou a brincar nos campos. Mãos que ao mesmo tempo repreendem e apaziguam.