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o mundo quieto

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Apontamentos #21

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Parece não ser, afinal, um assunto tão esgotado; aquele que deu origem ao título deste blog, O Mundo Quieto. Esqueçamos os tempos acelerados, a rapidez com que as notícias galopam, os desenvolvimentos técnicos, as descobertas científicas. Falamos de uma velocidade interna, mental, que experenciamos hoje da mesma forma que alguém na Idade Média a sentiria. Falamos do tempo, do agora, da posição que um corpo ocupa no espaço, e onde está o pensamento desse corpo nesse preciso instante. É a rapidez do pensamento que resvala para lá das acções físicas, ultrapassando-as. Raramente os movimentos coincidem com os pensamentos; e só ocasionalmente acontece quando o grau de concentração é exigido para determinada tarefa. Esse uníssono de intenção, pode (e deve) ser provocado, treinado, adquirido. 

Acaba de ser publicada em português a obra Esta Vida, do filósofo (apesar de ele se considerar sociólogo) sueco Martin Hägglund, onde defende uma visão secular (óbviamente não religiosa), sobre como viver os nossos dias. Os conceitos de eternidade e finitude, revisitados com tanta frequência em várias obras, ganha um novo fôlego e maior sentido, à medida que o nosso mundo se abeira de um ponto sem retorno. É, obviamente, para além de uma visão alternativa, um chamamento para o que ainda podemos fazer por nós, pela nossa mente e, consequente, por todos os que nos rodeiam. A ideia é tão simples, assim como a escrita aberta e fluída, atípica nos livros de Filosofia (há também aqui uma procura de massificar a sua mensagem), que é fácil colocar-nos em posições incómodas ao longo da sua leitura. Mas a mensagem está lá. Simples de entender. Simples de colocar em prática.

A ideia será desenvolver uma fé secular, uma liberdade espiritual (subtítulos da obra), porque assim se torna evidente assumir a nossa finitude. Assumida a nossa finitude, e porque é através dela que as vagas de entusiasmo pela vida surgem, a de se viver o momento com uma intensa consciência. Sabendo-nos finitos, ao contrário do que as várias religiões defendem com a ideia de eternidade, paraíso, reincarnação, estaremos mais atentos à forma como vivemos e nos oferecemos aos outros. Esta atenção plena, que Hägglund faz questão de desvincular da ideia generalizada do Mindfulness, levar-nos-á a viver melhor, com maior consciência do presente, do que estamos e podemos fazer, do que experenciamos com maior riqueza a partir do momento em que nos predispomos a viver sobre essa condição. 

Traz-nos ainda os fabulosos exemplos das obras de Proust, Em Busca do Tempo Perdido, e do atual Karl Ove Knausgård, constituída por seis livros intitulados A Minha Luta. Em ambas as obras, ainda que com diferentes intervenções do narrador, há a procura do registo diário, do que é vivido no quotidiano, por mais banais que sejam as situações. É uma tentativa tácita de fazer parar o tempo, ou pelo menos, registá-lo enquanto ele nos escorrega, cientes de que dessa forma conseguimos estar presentes e totais. A nossa totalidade de corpo, mente e espírito fundem-se finalmente para um único propósito; ter a certeza de que se viveu com a maior permanência e intensidade possíveis. Ou também porque, simplesmente, ser finito nos induz em viver com total entrega a todo e qualquer momento, seja ele memorável ou banal, que se pretenda recordar e perdurar nos tempos ou esquecer o mais rapidamente possível. 

Perante a nossa finitude, subsiste esta fé secular, revogando tendências niilistas e estoicas, que em muito se confudem com as posturas com que vivemos os nossos dias. Se tudo acaba, por que razão me deva preocupar? Ou Sentir? Ou Viver? Mas é porque tudo acaba, que me devo preocupar, sentir e viver.

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