Apontamentos #2
Inesgotáveis as conclusões que se poderão retirar da obra de Thomas Mann, A Montanha Mágica. O homem perante a doença, tornando-se consciente da sua vulnerabilidade, adquire novas camadas de profundidade como ser humano. Um engenheiro naval, de raciocínios objectivo e prático, transforma-se num personagem filosófico, num potencial sociólogo, interessado por botânica, propenso à meditação, sensível à música, romântico pelas breves e banais belezas do quotidiano. O seu espectro de interesses alarga-se como a abertura de um gigantesco leque, tudo apenas porque pressente em si a fragilidade do seu ser físico. Aquele que fora um burguês afectado e impiedoso nas interpretações do seu próximo, emociona-se consigo mesmo na condescendência e aceitação que se revela afinal capaz. É uma mudança interior sem tempo, história ou religião. Capaz de se realizar em cada um de nós, transformando-nos irreversivelmente. Houvesse a obrigatoriedade da permanência em montanhas assim, um tempo dedicado ao auto-encontro e reconhecimento, e o ser humano subiria um degrau na sua capacidade de melhor entender o próximo.