Apontamentos #17

O Náufrago de Thomas Bernhard tem como personagens o narrador, o pianista Glenn Gould e Wherteimer, a quem o título do livro serve de epíteto. Não é explícito ao longo do monólogo misantropo, se este Wherteimer se trata do psicólogo e filósofo checo Max Wherteimer. Aliás, pelas datas de nascimento e morte, dificilmente seria possível uma ligação entre Bernhard e este. Acresce que o livro também é sobre Glenn Gould, que o autor nunca conheceu. Por isso, há liberdade para fantasiar a união entre três homens distintos que existiram na realidade em diversas temporalidades e que nunca conviveram entre si da forma próxima como é relatada na obra. Dir-me-á o leitor atento para qualquer falha nesta suposição, desde que, obviamente, corroborada com factos credíveis. Até lá, será desta forma que habitarão no meu imaginário.
A uni-los na realidade existe o estudo pela música, onde excluindo o pianista Glenn Gould, terá sido apenas um acontecimento diletante, mas crucial para o entendimento do mundo e respetivas obras. Falo da multiplicidade de vozes, diversos matizes estéticos, de variações (como as de Goldberg de Bach) mais do que rítmicas, de desconstrução. E que belas são sempre as fintas ao cânone, a destruição do estabelecido, do cómodo; quase até, do comezinho. Porque é desde esse momento, arrasados os castelos imaginários erguidos por viciosas modas e tendências, que nasce a aventura de construir algo inédito.
Refiro-me às interpretações de Gould, não tocando qualquer nota que não seja sibilada pela sua voz; às maquinações de Bernhard na estrutura dos seus romances, como uma máquina que emperrando em determinado ciclo, timbra o texto de repetições; ao fenómeno Phi na psicologia de Wherteimer, que na repetição alternada de duas imagens distintas, nos oferece a ilusão de movimento. Há finalmente a visão do todo, da unidade gestaltiana, da proximidade e segregação necessárias para rematar a obra num hermético jogo de vozes caleidoscópicas.