Apontamentos #14
Deborah Levy dá uma grande lição: não é a forma que interessa, mas sempre o conteúdo. E dito isto, não há frase que seja artifício, ou militância de carreirista, de malabarista de palavras sem sentido. Qualquer frase diz o que é necessário dizer, sem precisar de umas quantas antes a abrir caminho. O caminho é feito a direito; ou como ela diria, visto que 'caminho é feito a direito' soar vago e batido: Os meus pés conduziam todo o meu corpo para a casa onde eu cresci e tentei ser feliz. Há tanta sinceridade em como se revela ao leitor. Fala-nos ao ouvido num jantar demorado, a espremer até à última gota as garrafas de vinho compradas fora de horas na mercearia dos paquistaneses. E é em toda esta informação desnecessária que reside o ponto alto da sua escrita. Frases que completam ciclos a lembrar os maneirismos do Thomas Bernhard; repetições afinal essenciais para nos lembrar que o quadro tem várias pinceladas e várias cores (desconstruir a gestalt ). E ainda uma simplicidade despojada. A grande urdidura está nos olhos dos personagens, nos modos, nas entoações de voz, na política, na emancipação da mulher. Talvez seja essa aspereza que envolva tudo subitamente num halo de catarse; a infância a galopar como um frémito, obrigando-nos a uma dança desengonçada, como se a mente ao chegar aos seus lugares mais reconditos necessitasse da ajuda de todo o corpo. Que bela é a escrita de alguém que dança nua à luz e calor da fogueira, revirando os olhos até ao branco máximo das órbitas.