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o mundo quieto

o mundo quieto

Apontamentos #11

Voltar a ser sombra. O vento uma única música a preencher o vazio do corpo, todo ele respiração. Quase não se move, apenas o necessário para o ar encontrar um espaço por onde passar. Ser silhueta é fazer morada no silêncio. Largar os pertences num canto, não lhes dizer dia de volta. Deambular continuamente como um aroma. Coco, lima, anis, jasmim, perfumes que perdurem e reverberem na imaginação. Não ocupar espaço algum, dizer não a um nome pelo qual nos possam chamar. Não ouvir qualquer nome com a intenção de nos chamar, de nos trazer de volta. Não ter razões para querer estar de volta. É possível caminhar dia e noite à procura deste vazio. Fi-lo anos a fio pelos corpos indesejados, à espera que o certo me chegasse de vez, me apanhasse num todo, me atropelasse feito certeza de que se tem fome. De que valeu a espera? Janelas abertas a um sol incómodo, persistente. Eu só queria um silêncio onde adormecer e acordar sem sobressalto. Fiz da espera uma idade displicente, cortava valor à importância da paisagem em redor. Deve ser assim a velhice, um estar esquivo de quem só sabe fugir. Olhar de frente a verdade e fingirmo-nos ausentes, imperturbáveis, inacessíveis. Adiei a tarde de primavera em que ao sentar na relva fresca se resume o impossível de nomear. E assim se deixa de acreditar nas tardes plácidas de março, nos reflexos prata da água que o tridente esguicha pelas nereides, lagos marmóreos que nos cegam quando a luz incide. Acredita-se nos jardins como uma fé sem deus. Há criação e morte, desordem e abandono. Mas também harmonia, embora tão devagar que nunca se tem tempo para a ver acontecer. São assim os jardins secretos. Não porque nos escondemos neles. Decidimos ser sombra, arte plausível até no horto mais descuidado, no baldio traseiro da indústria abandonada. Por vezes, há apenas o odor do óleo batido pelo calor, de uma azeda de berma apertada entre os dedos. Se formos eficazes no abandono, tudo acabará por nos servir. Passamos de exigentes a contemplativos sem transtorno maior, enfeitiçados. E não será essa a cegueira que se procura? Porque assim há a razão que nos falta em tudo o resto. Custa menos concluir que a vida é apenas isto. A vida é apenas isto? É isto viver? Mantra que enlouquece a boca e baralha o pensamento. A doce e fatal tentação da sombra. Ser espírito, ideia de poema, seiva de timbre. Habitar o imaterial, ser fluxo e gesto, ser pensamento sem palavra, conversa sem diálogo. A melhor casa do mundo, o esquecimento da sombra. Ser-se omnipresente, por fim. É conhecido que nos preenche mais tudo aquilo que nos falta. Acontece uma ligeira comoção nesta descoberta. São estes os axiomas que mais nos ferem. Quero dizer muito do que não fui. É preciso ter idade para isso. E o dia chega em que somos mais aquilo que não fomos do que o contrário. Transformamo-nos num conceito, teorema, projecto. 

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