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o mundo quieto

o mundo quieto

Apontamentos #10

Já tudo se disse sobre os perfumes. Süskind além de ter escrito um livro que todos gostámos de ler, escreveu um livro que todos gostaríamos de ter escrito. Se uma ideia poderá ter princípio e fim, tê-lo-á alcançado nesse objeto de arte. Resta a experiência própria dos odores, uma vivência intrínseca, músicas que cada um ouve sem possibilidade de testemunhá-las ao outro. A fragância transmuta-se no imaginário e ganha peles caleidoscópicas, habitáculo intricado de memórias únicas, visões irrepetíveis na tela fílmica que transportamos no interior. Classe!, diria o Ruben A., numa tentativa infrutífera do tanto para dizer, rematando a conversa nessa interjeição; esgotado de tentativas, de palavras a rodear o indizível.

O possível de acrescentar é apenas uma visão episódica e pessoal. Facto extraordinário sucedido pelo ano de 1995, no meu primeiro carro, carta acabada de tirar no início desse verão, liberdade com pulso sem instrumento de medição possível. À falta de redes sociais, abordava-se com o coração nas mãos feito poema caligrafado em folhas A4. O famoso send obrigava dirigirmo-nos a alguém pessoalmente, olhos nos olhos, sorrir, conversar, antever em poucos segundos a ínfima possibilidade de êxito. No verso do poema o número de casa. Entregava-se em mãos esse tesouro quase sempre escrito na urgência do impulso. Depois era esperar. Um, dois, três dias. Algumas vezes o telefone tocava e sabia-se finalmente que a sorte nos calhara.

Mas findou-se o verão sem telefonema. Foram precisas as primeiras chuvas do outono, uma enorme dose de tédio e uma inesperada saudade pelos dias fulgurantes para se ter decido a telefonar-me. Cheguei-lhe à lembrança e lá discou o número no poema guardado entre as folhas de um livro que nunca acabara de ler. Sabia-me sobra das tardes de Julho, mas eu jogava seguro nos dias molhados; dava-me melhor comigo mesmo nas atmosferas cinzentas, e agora até adornado por um carro mais velho do que a minha própria idade. E foi nele que falámos noite dentro. A chuva a castigar o para-brisas. Numa aberta, ainda tentámos o jardim intricado. Terá sido aí um primeiro beijo, uma detonação a sacudir o corpo. Mas foi no carro que tudo o resto se inventara. Colmeia agitada, Kawabata estendido no tatami incendiado por púberes, vapor de sauna portátil, aquário fumegante.  

Sabia-me sobra do verão mas julguei-me início de um próximo inverno quente e condicente com o tanto que se apostara nessa noite. Afinal fogacho de um braseiro que a chuva apagou. Nunca mais a vira, nunca mais me ligara. Não havia desamigar a comprovar que tínhamos falhado. Talvez se tenha proposto exceder-se apenas por uma noite. Ficara-me então o seu perfume. Não no meu corpo, porque todo camaleónico era acessível a novas histórias por escrever. Mas a sua fragrância, essa, alojara-se a termo incerto nos estofos, nas fibras da consola de instrumentos, no tecido dos cintos de segurança, na aspereza dos tapetes, nos plásticos das manetes, no forro do tejadilho, na chapeleira. O meu automóvel vira-se alagado por aquele aroma que teimava em não sair. Por vezes, conseguia esquecer-me dele. Mas num dia de mais calor, no abrir de portas, voltava reativada a recordação sudorífera daquela noite de outubro.

A coragem do meu poema revelara-se insuficiente perante tamanha destreza entre aparecer das sombras e através das mesmas ousar desvanecer-se.

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