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Um dia conseguirei fazer o inverso. Construir o esquema silábico 5-7-5 na língua mãe dos haikus. Por agora, já fico deslumbrado pelo rigor necessário em condensar, pela busca do minimalismo pensado e, consequentemente, escrito. O início seria Eis o teu poema, que me levaria já fora das 5 sílabas. Mas haverá assim tanta necessidade de impôr o "eis"? Esse 'aqui está' estará no gesto silencioso das mãos, a abrirem-se para a luz da manhã, e nesse lento movimento, poder apenas dizer 'o teu poema'. Claro que bonito seria o inverso. Lá chegarei. A combinação de hiragana e tiragana não será o mais difícil. Mas reparem como na última combinação silábica do primeiro verso, se salta para um kanji demoníaco apenas para dizer 'uta': poema. Uta. É tanta a história que me escapa (ainda que já saiba alguma coisa), que me sinto a profanar algo sagrado. Quando estudo demasiado, principalmente agora em época de exames, gosto de ver animé para descontrair. Depois das obras-primas de Miyazaki, ando a ver a série Blue Period, título a remeter para Picasso, sobre um jovem que deseja seguir o seu sonho em tornar-se artista. Dou um salto cada vez que ouço uma palavra que já conheço, e sorrio. Também sou como o jovem Yatora, sempre que entende que deu um passo em frente ao seu objectivo final; no acertar de pincel, na escolha de perspectiva, na composição, na dimensão. É uma beleza imensa poder aprender a vida inteira. Os jovens sofrem muito com todas as decisões que têm de tomar. Já passámos por elas. O meu filho também está pouco convicto com as disciplinas a escolher na passagem para o décimo ano. Não vale a pena. Tento mostrar-lhe que estudar faz parte do processo de uma vida inteira; que nunca estaremos completos e que estará algo errado se pensarmos o contrário e entender as coisas como plataformas estanques ou inamovíveis. O bom de aprender é ter a liberdade de errar. Enquanto houver erro é porque existe tentativa. Não tem mal errar no curso, na área. Haverá tempo para simplesmente mudar. O mundo está complexo e, a maior parte das vezes, incompreensível. Sofro por trabalhar numa área que me obriga a pactuar com o desenvolvimento galopante e desenfreado da tecnologia. Mas escolhi a licenciatura de Ciências Sociais, com minor em Sociologia para melhor entender este espaço em que habitamos. De onde viemos, como nos organizámos, onde errámos, para onde vamos, o que somos, o que sou, quem és tu, e quem és tu quando estás comigo. Não admira que a Sociologia seja um ramo da Filosofia. Isto para dizer que quando escolhemos um objectivo não podemos cair em tentação de ver o quadro completo como o jovem Yatori, ou como eu, em querer dizer mais do que o necessário num verso. Se cairmos nessa tentação, encontramos o conflito interno, e isso irá tirar o prazer de aprender as coisas simples. Mais tarde se verá. Ou talvez quando finalmente conseguirmos ver o quadro inteiro, nos apeteça outra coisa. E estará tudo bem.