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Josh Hild
Desaprende-se a chegada da noite. Segue o passo entre o frio, esquiva-se a mão no bolso próximo, ajeita-se o duplo queixo na gola levantada do casaco. Um homem habita a sua vida como um visitante fugaz. Inábil à mínima contrariedade. Onde ficaram os cavalos fumegantes, as tintas escarlates pingando das telas já usadas, o filtro de meio bilhete de metro para enrolar o tabaco barato? Algures numa noite sai-se à rua e o frio é um castigo, quando outrora quase se cheirava a cão pingados de chuva. Que visitante distante te tornaste da tua vida? Esquece-la numa gaveta, mapa dobrado entre um bloco de notas manchado de pingas de café. O cruzar de perna deixou de ser uma onda a clamar nomes, as mãos finas e articuladas agora em remendos inutilizados, ferramentas cuja ferrugem lhes envergonha a utilidade. O homem descobre a vida de poema em poema. Uma frase arrebata-o e leva-a consigo durante o dia. Há que abrir o mapa do bloco de notas e descobrir em que vida, em que país, em que corpo. A sinalética dita uma tortuosidade sem retorno. Talvez seja necessário abrir esses cadernos antigos, e como um escrupuloso espião traçar as linhas possíveis de uma vida. Chegar a um momento e com solenidade deixar cair o indicador e dizer: «Aqui!» Que começos possíveis se nesses momentos já se chegava atrasado ao início das coisas belas? Porque sem hora acontecem como poemas, como pingas de chuva, como luzes incendiárias, como fumos adocicados. Sim, aqui. E agora? Sou farol ou embarcação movediça?
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