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o mundo quieto

o mundo quieto

O Segundo Movimento #3

Como descrever os primeiros dias, senão de normal acanhamento, uma vontade expressa de não invadir o espaço contrário, ainda que se estudassem em permanência os ritmos e hábitos de cada um. Foram vários os dias em que os encontros se resumiram à refeição ou a um raro e ocasional cruzar pela grande escada bifurcada, quando em horários quase sempre desencontrados um descia e outro subia. Era a ideia que ficava, a de estarem sempre em direções opostas. Artur fingia concentrar-se às primeiras horas do dia, rascunhava algumas ideias como quem pica o ponto, repetia frases que conhecia de cor apenas para ver crescer a mancha de tinta na alvura das folhas e sentir-se a produzir algo, ainda que apenas fossem cópias mentais, um disco cuja audição se repete, que não entusiasma mas que também não aborrece, uma absorta condição de passar pelo tempo, e por vários momentos se exasperava; se os dois meses fossem apenas um fogacho do incêndio que idealizara, o que fazia ele ali? Mas as manhãs avançavam e quanto mais perto da hora do almoço maiores as probabilidades de encontrar Vera. Acordava tarde, já o sabia, tal como previra. Dava por si a fazer uns passeios em volta do solar por essa hora. Ao rodar para os jardins traseiros, fingia contemplar os ornamentos do zimbório, fixando o olhar na sua janela. A posição das cortinas revelava se já havia acordado. Os passeios tornaram-se cada vez mais longos e lentos. Adentrava os caminhos intricados entre os frondosos castanheiros, e pelas abertas dos salgueiros esperava qualquer sinal da sua janela festonada. Fazia cálculos tão pobres e desesperados que se resumiam a um «se já acordou há quarenta minutos, por que razão não sai ela? Não abre sequer uma janela? Estará a escrever?», e rodava ao final da propriedade, junto a umas toscas construções que haviam servido em tempo de cavalariças, para regressar novamente. Nestes passeios cruzava-se demasiadas vezes com o anfitrião da casa, e tentava sempre sorrir-lhe veemente, querendo ocultar do seu rosto qualquer laivo de criança atiçada pelo presente que ainda não pode abrir.

(excerto do livro de Vera L.)
Estamos na sala do piano. Um sexto andar próximo da Avenida da República. Cheira a urina de gata que por vezes surge a indagar quem de novo entrou. Sentamo-nos junto à janela. Lá fora já a tarde é escura. Não chove. Não há vento. Não chegam os sons da cidade ao último piso do prédio antigo, cuja entrada ainda conserva as paredes forradas a alcatifa dos anos sessenta e grandes castiçais empoeirados a comprovar o peso do tempo. Vamos chegando, apreensivos. Eu tento lidar com a pronunciada coincidência de existir um piano de cauda numa sala de psicoterapia. Tento lidar com o vocabulário desgarrado de uma psiquiatra que estudou piano, dedicada mais por teimosia do que por paixão, a desencaminhar os netos a estudar Hanon, Bach, Czerny; confidenciou-me um dia, já que os filhos nunca se interessaram pelo instrumento. Mas dizia que vamos chegando, e sentados num círculo junto à janela nos apresentamos e vamos segredando as maleitas que nos conduziram àquela sala. A estranheza que se repete em filmes é uma fábula de crianças face à realidade bruta que se respira neste tipo de encontros. «Aqui é a doer!», penso, enquanto meço palavras na minha apresentação. A doutora sabe que me aconchego para não alentar um pedantismo que me caracteriza, e logo afirma em voz alta a todos os outros que escrevo e toco piano, que não é crime, muito pelo contrário, que se o faço o deva admitir, que isso me torna maior, e que não esmoreça nesta falta de estima própria. Eu anuo, que sim, que tem razão, que até pode ser esta fome de querer fazer coisas que me consome por dentro e me desordene e me leve à lama de uma chuva que não me pertence. Entendo que este temporal me persegue há muitos anos. Mas antes tinha no álcool uma justificação, na conduta adolescente ainda havia espaço para clivar uma verdade a pedir explicações. Hoje o que me resta? Uma relação ocasional com o meu editor adúltero, dois livros resgatados ao sofrimento e longos dias prostrada, tirando as treze horas a dormir todas as noites. Os outros também falam de si. O jovem que fingiu frequentar três anos a universidade. Saía de casa primeiro de que os pais e voltava a entrar mais tarde para passar o dia a jogar consola. Três anos nisto. A assessora do ministro sem coragem para dizer ao mundo quão assediada e maltratada era. Nem mesmo ao seu marido, grande amigo do primeiro. O inspector da PJ obrigado a cumprir vários meses de terapia por quase ter levado à morte um suspeito com as suas próprias mãos, num longo e extenuante interrogatório. Descubro-me microscópica perante a gravidade alheia. «Isto não é para meninas», repito-me a pensar quando ouço alguém dizer que por duas vezes tentou o suicídio, dito com a ligeireza de quem descreveu por diversas vezes essas chamadas de atenção. Miro-lhe os pulsos. O corpo magro que outrora enchia as roupas que traz folgadas. Comprimidos. Para dar tempo. Uma chamada de última hora a alguém próximo e hospital com ela, para se limpar, e voltar a sair para repetir a encenação. É cruel esta vida. Chegarei até aqui, perguntei-me, enquanto lhe desisto dos olhos e do queixo tremente a puxar o choro. Não pactues. Não partilhes. O piano que me assombra. Porquê logo aqui um piano? E se ainda me tornar como ela, de pulsos imaculados, mas de estômago habituado a um festim químico? Apenas para agitar águas, uma pedra na vertical a mergulhar, pequenas ondas circulares atingindo primeiro os mais próximos até aos mais distantes. Outros dizem-se bem. Que a vida mudou para melhor. A doutora acende outro cigarro e afirma que as depressões são necessárias, que nos instigam a mudar, a ganhar coragem para enfrentar o que não está certo. Passamos a ser intervenientes daqueles passatempos mistério, a procurar em várias salas de um hotel o criminoso de uma velha rica. Nunca é quem se espera e por isso há que mexer na merda. Na merda que nos habita e se multiplica quando apenas tentamos encontrar saídas para o lixo que nos tolhe, e nos proíbe o discernimento de entender o que nos trouxe até aqui. Quando saímos, partilhamos o exíguo elevador. Seis andares em direção à terra feitos num silêncio que raspa vísceras. Separamo-nos à saída do prédio, tão acabrunhados quanto chegáramos e iludidos seguimos pelos passeios escuros, a pensar quem será o criminoso de uma história inventada seis pisos acima. E esmorecemos. Não temos respostas, menos ainda pistas para seguir. Quanto tempo nos irá custar esta charada? Seremos ágeis o suficiente para o malabarismo da ficção e realidade? Entro no metro. O odor a óleo quente característico dos carris afasta-me da acidez da urina de gato, do piano na ampla sala onde nos sentáramos a vasculhar no esterco. Esta transmutação requer destreza, movimentos agilizados característicos da fuga. Nisso somos bons. A adiar. E para amanhã deixamos o mistério, se por hoje sentimos que de mistério é a realidade em que vivemos.

Num dos jantares Vera estava particularmente alterada. Ouvia com dedicada atenção as formas reflexivas com que Artur se munia para criar os famosos labirintos nos seus livros, onde os vários caminhos abertos acabavam sempre por chegar a um ponto de confluência final. Escutava-o com um olhar trémulo, uma comoção latente que lhe fazia brilhar o negro dos olhos. Bebia vinho – era o primeiro jantar em que a via beber álcool – com uma velocidade improvável, mas em momento algum denunciou qualquer vacilação na sua postura atenta. Acabara por confessar-lhe que pouco havia escrito em todos aqueles dias já passados, uma página se tanto. Artur assentiu em concordância. Vera acrescentou que o mais difícil era aceitar que as histórias e a vontade de escrever existiam, mas que se resumiam aos acontecimentos da sua vida. Havia tentado a ficção no segundo romance, resultado que lhe fora totalmente exterior e impessoal. Entristecia-se ao entender que o rastilho da sua escrita encontrava-se sempre e apenas no que vivera, e que isso acabava por ser doloroso, pois se acordava todos os dias com vontade de mudar de vida, regredia sempre que escrevia. Uma contradição difícil de aceitar. E pousou finalmente a cabeça de lado sobre o seu punho fechado, num gesto de abandono físico, e uma aproximação a Artur que lhe parecera genuína e, dir-se-ia mesmo, cúmplice e bela.

Decidiram sair para um passeio nocturno. Artur aprontava-se para rodear o solar, ouvir o salpicar da água no repuxo das figuras míticas, o vento nas folhas das árvores a caminho das cavalariças, mas Vera retirara já do bolso a chave do seu automóvel abrindo-o à distância. Vendo a indecisão de Artur e sem estancar o passo sentenciou: «Por favor, passamos os dias aqui fechados. Vamos lá baixo ver o mar.» O porteiro abriu-lhes a cancela com um ar de surpresa, acenando-lhes por fim. O moderno Cooper revelava a sofisticação que completava a aura de Vera, mas ao levantar o volume da música, já após alguns metros em silêncio, o quadro baralhava-se novamente ao ouvir-se um concerto de piano de Rachmaninoff. As curvas eram acentuadas, desciam a serra em direção às faldas oceânicas, e parecia uma viagem sem um destino concreto, imersos no escuro que se interrompia apenas à sua passagem com os máximos ligados. Tudo era estático e fílmico, uma grande sequência de único plano a uma velocidade reduzida. «Fui pianista grande parte da minha vida, Artur.» O escritor virou o tronco na sua direção: «É a Vera a tocar?». Respondeu-lhe que não, que poucas pessoas podiam tocar assim Rachmaninoff, muito menos ela agora, depois do que acontecera. Artur concentrou-se no piano e queria muito perguntar-lhe o que era aquele ‘depois do que acontecera’, mas sem ousar, voltou a pousar o olhar na estrada. «Não é grande mistério. Há pessoas que ainda que toquem perfeitamente, não conseguem aguentar a exposição dos concertos. Sou uma delas. Embriagada a coisa corria, mas a responsabilidade aumentou demasiado. Comecei a falhar por várias vezes mas sempre pensei que se devia a falta de preparação ou estudo. À medida que forçava mais um concerto, forçava mais de mim e ainda mais do álcool. O esgotamento nervoso por se fazer aquilo que não se consegue tolheu-me como um comboio que nem tempo tem de abrandar antes de trucidar alguém parado na linha. Desde esse concerto que nunca mais toquei ao vivo, sendo que os últimos compassos foram tocados num sofrimento atroz, o vómito a subir-me à boca, um suor vertiginoso a toldar-me o equilíbrio. Ouvia ainda as palmas quando já estava na casa de banho a virar-me do avesso. Nos quatros dias seguintes não consegui dormir um minuto que fosse e soube finalmente que não estava bem.» A tonalidade passava a menor, o oboé confirmava a desolação, o piano agora em oitavas reforçava uma intenção de sofrimento, as cordas levantavam voo para logo se silenciarem.

Ao chegarem à linha da costa, deixaram-se ficar dentro do carro. As ondas batiam forte no quebra-mar e salpicavam o para-brisas como se chovesse. Ouviu-se em seguida outra obra, agora de Ravel. O segundo movimento do concerto de piano em Sol Maior. Artur identificou-o perfeitamente, suspirando a revelar que o conhecia bem. Vera sorriu: «Criei esta pasta de músicas só com os segundos movimentos de concertos de piano. Adágios e mais adágios. Principalmente neste de Ravel, há quase uma bipolaridade pela dissonância com os outros movimentos. No segundo movimento o compositor baixa a guarda, diz o que verdadeiramente interessa, concentra toda a sua energia e génio em dizer com a menor quantidade de notas o tanto que pretende. Tudo é medido com uma doçura plácida, um estado meditativo que parece perdurar nos tempos, um despudor em ser eloquente, triste e belo. É nesse estágio de quietude intemporal que tento viver agora.»

Artur fixava o seu rosto virado para o escuro do mar. Ouvi-la a falar pausadamente sobre a música que escutavam era um acontecimento tão inaudito que o arrebatava. Circundado pelo fogo de um desejo impossível, não sabia o que fazer com as mãos, estavam a mais no seu corpo todo ele ouvido e coração. Sentia a pulsação do sangue num frémito, gritava a uma só voz inaudível, amordaçado na sua idade. Tecendo um respeito religioso pelo sofrimento alheio era uma solução apenas temporária. Ousou cheirar-lhe o cabelo encaracoladíssimo mais de perto, fascinado e atraído, talvez até atraiçoado, pelo seu perfume; esse tesouro inacessível escondido nas vielas mais intrincadas e exíguas, mas que lhe chegava como uma chicotada de terror delicioso e insuportavelmente irresistível.

Vera sentiu-o aproximar-se de si. Olhou-o de modo complacente, e em silêncio, abanou a cabeça lentamente a dizer-lhe que não. O piano em trinado de notas terminou o segundo movimento do concerto de Ravel.

 

O Segundo Movimento #2

Foi um encontro informal. Para além do jovem editor encontravam-se presentes alguns fotógrafos locais, o presidente da câmara, o atual diretor da casa e a outra escritora convidada. Não parecia ser nenhum rasgo publicitário pelo grupo editorial. Havia, sim, uma atmosfera de propaganda concertada, uma convergência de interesses de várias partes, onde os escritores, uma vez mais, serviam de macacos amestrados a exibir as suas habilidades exóticas.
Não conseguiu evitar um olhar mais demorado ao cumprimentar Vera S. Parecera-lhe ser mais baixa e magra do que aparentava nas fotos dos livros. Talvez pelo grande rosto e volume do cabelo encaracoladíssimo que se armava em volta da sua cabeça. O nariz não era bonito; o osso central largo como o de um pugilista. De resto tudo lhe era magnético. O negro dos olhos, as pestanas e grossas sobrancelhas que não precisavam do contraste da maquilhagem, e os lábios, muito largos e proeminentes, ainda que brilhantes por um batom de cor quase neutra, eram rubros o suficiente, como se tivessem acabado de ser mordidos com alguma força e recuperassem rapidamente o sangue. Vera S. era por fim uma mulher no corpo de uma adolescente, quase frágil. Vestia uma túnica preta e calçava umas botas de inspiração militar, que lhe conferia um classicismo urbano, uma excentricidade face à ocasião: estava e queria marcar uma ligação entre a sua pessoa e o que escrevia. E como seria ele aos seus olhos, pensava enquanto pousava desarticulado para uma foto de grupo. Os dois lado a lado, ao centro e em destaque.

A foto foi tirada à porta do solar, construção iniciada pelos princípios do século XIX e que deste então tem crescido até à forma atual; alcandorado na falésia atlântica, cuja paisagem se estende por ladeiras até ravinas recortadas, semeada de bosques e rochas cobertas de musgo, onde resistem aos ventos do mar velhos castanheiros em decomposição. Defronte ao portão principal, abre-se uma cascata em forma de leque, com nereidas sensuais envolvidas pelos longos cabelos de um gigante Tritão; as figuras incandescem com o sol a bater na alvura recuperada do mármore. O silêncio em volta confere aos repuxos uma melopeia plácida, típica dos jardins orientais. Sobe-se então pela escadaria central, que conduz a um varandim alpendrado, de largas ogivas. Daí é possível ver para além dos muros da propriedade o azul diáfano do oceano. Poltronas de verga convidam a finais de tarde aromatizados por chás de jasmim. A larga porta conduz diretamente ao salão principal, com ligações às cozinhas, salão de jogos, biblioteca e a largas janelas com pequenos varandins para os jardins traseiros. Onde nos anos 50 se mantinha um ringue de patinagem que também servia de corte de ténis, surgia agora uma piscina ladeada por deque escuro, construção moderníssima e dissonante de tudo o resto. Uma escada alcatifada bifurca-se para acesso ao piso superior, levando a um corredor comum, por onde se dividem para ambos os lados, os vários quartos.

Foi com espanto que ouviram do seu anfitrião que eram os primeiros hóspedes do solar, desde a sua reabilitação, e que, estando em época baixa, seriam também os únicos durante os dois meses de residência artística. Esperava-se com isso um aguçar de curiosidade pelas gentes de gosto requintado, para nesse mesmo verão, abrirem portas a plenos pulmões. Era a assunção da razão de ali estarem; engodo refinado. O solar teria sempre alguém na cozinha para os servir, e de noite, um vigilante ocuparia o posto de entrada. De resto, ele mesmo estaria ao dispor de ambos. «Reparei que trouxeram os vossos carros, mas sintam-se à vontade em pedir transporte para onde desejarem. A câmara assume viatura e condutor para qualquer deslocação ou visita guiada. Os vossos quartos serão os maiores do solar, as últimas portas ao fundo do corredor; cada um do seu lado. Devido à simetria da construção, nenhum ficará a perder para a melhor vista. Sintam-se em casa. Sei que vêm para trabalhar, mas, sinceramente, usufruam o máximo que puderem.» Uma mulher bisonha e imponente assomou a uma porta ao fundo, dando para a cozinha. O anfitrião, antes de desaparecer, pediu-lhes que deixassem as suas malas ali mesmo; seriam levadas assim que escolhessem os quartos de cada um.

«Esquerda ou direita?», pergunta Vera no patamar central da escada onde iniciava a bifurcação para o corredor dos quartos. «Certamente que não serei eu impor a minha vontade a uma senhora», respondeu-lhe Artur, investindo um ar de gentleman zombeteiro. A escritora abanou efusivamente a cabeça em negação fazendo balouçar o frondoso cabelo encaracolado. «Tudo errado. Vamos fazer isto como deve ser. Afinal, passaremos aqui dois meses. Vamos ver os dois quartos. Serão eles a escolher-nos». A desenvoltura com que tratava Artur deixara-o inesperadamente confortável. A escolha acabara por ser fácil, porque efetivamente, em nada se diferenciavam um do outro, mas aquele périplo à intimidade espacial que os aguardava gerava a ambos um tácito entusiasmo. Artur P. confessara que escrevia à mão, diretamente em papel, e sempre de manhã, pelo que um quarto virado a nascente lhe seria favorável. Vera acedera prontamente, pois adorava as sépias antigas e douradas dos poentes sobre os lençóis. Quanto às horas de escrita, não as tinha, e tanto podiam acontecer com o portátil na cama ao deitar como na espreguiçadeira da piscina ao sol do meio-dia.

(excerto do livro de Artur P.)

acho que me repito, mas só sopesando o quanto há ainda por descobrir, nasce esta vontade de escrever como se alguém me escutasse, e não havendo horas, eu pudesse a meu bel-prazer desvendar-me perante o desconhecido, não um eco da própria voz, prefiro imaginar um corpo com rosto, quase imóvel, a escutar-me com paixão (compaixão?)

sei que as palavras se amontoam, os discursos se sobrepõem, os diálogos empatam a fluidez da leitura, tudo quase a resumir-se a um grande ódio pela ordem, pelas coisas com nexo, a fazer sentido aos mais desatentos, não escrevo para os desatentos

- Não é para ti que escrevo

antes para mim próprio, para mim mesmo, nunca me decido qual a forma correta, e enquanto houver indecisões, este caos será uma casa onde ocasionalmente uma janela a mostrar-me

- Agora é aqui que vives

e eu aceito, como não aceitar, se já deambulei como quem procura perder-se de propósito, não gosto desse escuro que me traz a solidão, não sei o que fazer com o mundo, e com toda a certeza o mundo pouco saberá o que fazer comigo, porque afinal tanta gente, uns isto, outros aquilo

a sobrevivência é um depósito de promessas, quando alguma se concretiza, pulamos em frente, renovada lufada de ar, todo o corpo entusiasmado a gritar é por aqui, é por aqui, quando afinal tudo desarrumado cá dentro, as velhinhas peças que não encaixam

- Como encaixá-las se não pertencem umas às outras?

toda a probabilidade de erro ser sempre maior que a restante, uma balança viciada, acho que me repito neste ódio pelas coisas sem nexo, tanta gente e este escuro que só traz solidão, há vozes dentro de mim quando deveriam haver frases audíveis, pessoas de carne e osso a ouvirem-me, mas tanto erro no humano, se até os deuses

- Errámos todos. Apaga-se tudo e começa-se do início

é tarde agora, por isso os mantras, por isso a respiração, o faro a apurar-se para se evitar apuros, e quando digo apuros são anos inteiros a viver o que não se quer, quando apenas uma única vida com deuses a errarem na nossa crença

- Começa-se do início

um dia não haverá retorno, o fio de lucidez a esvanecer-se num suspiro e tantas moradas que já nenhuma para chamar de casa

Apontamentos #17

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O Náufrago de Thomas Bernhard tem como personagens o narrador, o pianista Glenn Gould e Wherteimer, a quem o título do livro serve de epíteto. Não é explícito ao longo do monólogo misantropo, se este Wherteimer se trata do psicólogo e filósofo checo Max Wherteimer. Aliás, pelas datas de nascimento e morte, dificilmente seria possível uma ligação entre Bernhard e este. Acresce que o livro também é sobre Glenn Gould, que o autor nunca conheceu. Por isso, há liberdade para fantasiar a união entre três homens distintos que existiram na realidade em diversas temporalidades e que nunca conviveram entre si da forma próxima como é relatada na obra. Dir-me-á o leitor atento para qualquer falha nesta suposição, desde que, obviamente, corroborada com factos credíveis. Até lá, será desta forma que habitarão no meu imaginário.

A uni-los na realidade existe o estudo pela música, onde excluindo o pianista Glenn Gould, terá sido apenas um acontecimento diletante, mas crucial para o entendimento do mundo e respetivas obras. Falo da multiplicidade de vozes, diversos matizes estéticos, de variações (como as de Goldberg de Bach) mais do que rítmicas, de desconstrução. E que belas são sempre as fintas ao cânone, a destruição do estabelecido, do cómodo; quase até, do comezinho. Porque é desde esse momento, arrasados os castelos imaginários erguidos por viciosas modas e tendências, que nasce a aventura de construir algo inédito.

Refiro-me às interpretações de Gould, não tocando qualquer nota que não seja sibilada pela sua voz; às maquinações de Bernhard na estrutura dos seus romances, como uma máquina que emperrando em determinado ciclo, timbra o texto de repetições; ao fenómeno Phi na psicologia de Wherteimer, que na repetição alternada de duas imagens distintas, nos oferece a ilusão de movimento. Há finalmente a visão do todo, da unidade gestaltiana, da proximidade e segregação necessárias para rematar a obra num hermético jogo de vozes caleidoscópicas.

O Segundo Movimento #1

Por momentos, julgara-se equivocado. O sol poente entrava pelas janelas rasgadas e conferia ao espaço uma ­imagem efabulada; todos os objectos pairando acima do chão, assim como os seus pés, que na relutância de quem duvida, caminharam como se levitasse num tapete de luz. Pensou que seria esta a forma mais digna de envelhecer; a de ganhar a possibilidade de fantasiar em qualquer ocasião, ou apenas esquecer-se dos espaços que já percorrera, e assim, qual menino, extasiar-se ingenuamente com imagens que revia como se fosse a primeira vez. Nunca a senilidade. Esse desgoverno guardava-se a quem não ocupando a mente, receberia o devido castigo como uma sentença irrevogável. Ele não chegaria a essa fase de espírito, parca condição existencial, pois se passara a vida inteira a derramar a sua vida em romances e ainda os escrevia, estaria a salvo desse afunilar de ideias e juízo.

Apresentava-se ao seu novo editor, um jovem afetado, e tanta coisa mudara desde o falecimento do seu antecessor, que até as horas vespertinas da reunião lhe soavam a pedantismo e a uma postura despicienda pelo ofício. Concluíra agora que nunca havia entrado naquela sala de tarde. Fora isso que o baralhara à chegada. Os livros discutiam-se e trabalhavam-se como a terra, e à moda antiga, bem cedo e antes que a cinza dos dias mundanos turvassem as ideias. Na pior das vezes, as reuniões terminavam com um almoço demorado, onde já não se regressava ao escritório. Aí sim, havia tempo para mais um uísque e dois dedos de conversa sobre este ou aquele lançamento, apenas para desanuviar. Todos os minutos tinham um peso incomensurável e por diversas vezes implicaram com os atrasos do designer, ainda que chegasse com o sorriso de quem vingara no trânsito caótico montado na sua assustadora e potente moto. Mas trazia-lhes sempre ideias capazes de lhes amainar os nervos; capas sóbrias e de suaves matizes, onde bastava timbrar em relevo o nome do autor, o seu nome, para se garantir uma anunciada e certificada qualidades literárias.

O ciclo chegara ao fim numa doença conhecida. Havia tempo, mas não muito tempo. O seu editor garantira a venda da chancela que há muito era namorada por um grande grupo editorial, visto consagrar no seu catálogo escritores europeus de sistematizada importância, premiados e ganhados a pulso, embora quase sempre subvalorizados como qualquer filósofo ou sociólogo respeitáveis. Eram as leis de uma esfera selvática, onde nos últimos anos vender livros era tudo menos vender histórias, ideias e pensamentos. Era um objecto passível de comércio, com custo, margem e lucro. A nível nacional, era aqui que ele se encontrava. Nos que vendiam poucos exemplares, ainda que com um público de leitores fiel e incansável pelo seu mundo imaginário. Permitiam-lhe viver e ter alguma dignidade nesse meio que cada vez mais se parecia a um horto descuidado, onde nasciam escritores como ervas daninhas em redor das roseiras de sempre.

Mas esta mudança de paradigma, onde abutres visionários pela derradeira história do século, que os levaria a vender um livro como algo irrepetível, afinal um objecto cansado e sem fôlego para perdurar no altar dos notáveis, passava-lhe longinquamente. Ele estava imune a essa sangria literária, demarcava-se cada vez mais das chamadas tendências históricas, e tecia em modo provocatório, de livro para livro, uma intrincada e exigente polifonia de vozes, sabendo desse modo estar a filtrar o ouro do seixo, o leitor incauto e preguiçoso do que homenageia a literatura como uma iguaria intelectual.

Enquanto apertava a pequena e fina mão do seu novo editor, era com todo este semblante que o fazia, assegurando pela raiz dos acontecimentos uma condição de elevação, colocando-se num território inalcançável, a que muito poucos têm acesso, ainda que lhe sorrisse com a maior educação e afabilidade. Seria, portanto, expectável alguma mesura no trato deste autor imaculado, que logo acabou por se sentir indevidamente reconhecido, formulando-se até na sua cabeça a pertinente questão de quantos livros seus havia aquele jovem lido.

O diálogo avançava entrecortado, galgos a medirem forças, desenhos de limites nas fronteiras de cada um, gestos moderados, anuíres inconvictos, receosas palavras. Mas apenas ao início. O editor garantia por fim a certeza de que a loja seria a mesma ainda que patrão diferente; poderia continuar (como se atrevia?) a escrever as suas polifonias de vozes, os seus labirintos poéticos, alguns desvarios numa estética um tanto difícil para o que estava em voga; enfim, nomeava-o arcaico e decrépito num mundo voraz prestes a engoli-lo. O escritor, chamemos-lhe apenas Artur, fitava-o como uma peça concebida para receber uma morte lenta e agonizante, tamanha a perfídia com que se lhe dirigia. Passaria a ser homem de ódios, ele que nunca se detivera em tais despeitos. Agora apertava as mãos como se se tratasse de um assassino a soldo, sem ponta de remorso, isento de escrúpulos. Toldava-se-lhe a consciência.    

Claro que estava livre para mudar de editora, ainda que essa decisão fosse contrária a de todos os outros, pois estar num grupo editorial maior significava mais poder de infiltração no mercado e logo mais vendas. Não veria, afirmava presumido o novo editor, que tal ideia fosse sequer um assunto a discutir, ainda que estivesse obrigado, por mera formalidade, a informar-lhe dessa liberdade. Aliás, acrescentava, era tempo de mostrar ao tempo que era perfeitamente possível aglomerar numa única editora escritores comerciais dos, chamados, mais eruditos. E aqui chegava a sua proposta, como uma celebração e simultaneamente uma mensagem de unidade para todo o público em geral: juntar numa residência literária essas duas linhas de pensamento. Cruzar ou talvez colocar num ponto de partida igualitário essas distintas gerações, de idades e formas de pensar. Seria um resultado interessantíssimo para o público de todos ver e esperar com enorme expectativa os resultados finais.

Tinha-as escrito diversas vezes nos seus romances, situações improváveis que só com grande vontade de entrar na história se tornariam aceitáveis aos olhos do leitor. A velha máxima do ilusionismo: Concentra-te na magia. Porque quando tudo se desencaixa dos trilhos normalizados e se pisa terreno desconhecido, os nossos sentidos alertam-se, apuram-se a visão e a audição, e muito antes de se conseguir articular uma pergunta, proferir uma palavra que seja, existe tolhimento, paralisia, torpor. Era nesse estado que se mantinha sentado diante do seu novo editor, ouvindo-lhe agora o discurso desenvolto sobre a já aprovada residência artística, com data e local marcados, e com as máquinas da comunicação prontas a lançar a notícia para o mundo inteiro. O primeiro nome estava confirmado, faltava apenas a confirmação do seu. A segunda geração estava pronta e esperava ansiosamente pela primeira, a sua geração.

Não se desarmou ao ter como resposta o nome de uma mulher totalmente desconhecida, quando lhe perguntou, afinal, que escritor era esse da nova geração. «Uma jovem senhora», precisara o editor com o indicador estendido para o tecto, como se assim não houvessem mais dúvidas sobre quem se tratava. Não querendo dar conta da sua ignorância sobre o novo panorama de escritores do seu próprio país (como poderia ser de outro modo, se eram cada vez mais?), esboçou apenas um esgar, reacção que julgava a mais esperada pelo jovem arrivista, que logo tratou de lhe elucidar que a escritora em causa preparava o seu terceiro romance, com bolsa de criação atribuída, atestando um futuro fulgurante. O nosso escritor mostrou as palmas das mãos, encenando um sinal de rendição absoluta. Levantou-se, pediu-lhe um par de dias de reflexão e despediu-se dizendo-lhe que dificilmente a proposta seria aceite. Que cidade europeia, perguntou-lhe num súbito repente, como se induzido por um choque elétrico. «Ora, ora, caríssimo Artur, para que precisamos nós da Europa com o bonito país que temos; nada disso, será cá numa aldeia, alojados no meio da natureza, numa daquelas recuperações de fachada antiga de um velho solar» - respondeu o editor, pousando-lhe nas mãos, num gesto vagaroso, quase solene, um sobrescrito com todas as informações necessárias.

Voltou a sentir-se encadeado pelo sol poente cada vez mais queimado, o seu corpo de sessenta e dois anos parecia definhar de força naquela sala que se tornava finalmente irrespirável. Pisava brasas e quanto menos demorados fossem os seus passos em direcção à saída melhor. Mas o que verdadeiramente o incomodava era sentir já dentro de si a forte suspeita de aceitar o desafio. Prometeu-lhe sem grande convicção uma breve resposta e saiu em busca da primeira livraria que encontrasse.

Os dois livros ocupavam um lugar de destaque nas bancas centrais com a capa visível, em vez do lugar das prateleiras onde a fina largura das lombadas lhes daria o anonimato. Sentou-se num dos sofás disponíveis da livraria um tanto barulhenta para o seu gosto, e folheou os livros que quase lhe saltavam das mãos, parecendo vivos e confirmando o seu ímpeto de curiosidade. Queria ter a certeza de que essa segunda geração se matava a si mesma, redobrando-se em formas estafadas de escrita, anulando-se pela teimosia em escrever o acessível. Mas o que encontrou estava para lá do seu genuíno desejo. No primeiro livro, encontrara uma escrita quase confessional; longos ensaios diarísticos onde cruzava o quotidiano com questões profundas de existencialismo, usando um tom de proximidade, como alguém que nos fala ao ouvido. O segundo romance abria mesmo num despudorado diálogo corrido, lembrando os guiões de cinema, mais próximo portanto da conversação natural, conduzindo a leitura a um ritmo acelerado e contagiante. Ao contrário do que esperava, tinha diante de si uma boa escritora. Não precisava de ler os dois livros na íntegra. Sabe-se ao ler as primeiras páginas. Dirigiu-se para a fila da caixa para os comprar e enquanto esperava, pousou o olhar durante algum tempo na fotografia da escritora, colocada na contracapa. Os dois dias pareceram-lhe uma eternidade; mas obrigava-se a eles, não querendo mostrar, afinal, um súbito entusiasmo. Ligou para o jovem editor e, sem grandes explicações, informou que podia contar com ele.

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