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o mundo quieto

o mundo quieto

Apontamentos #16

A guerra infelizmente começou. E já foram tantos os dias em que se falou do seu início que até parece não causar espanto. Já se esperava, será o que muitos dirão. Por mim, enquanto houver possibilidade de diálogo, nunca se espera uma guerra; mas a forma como todas as fontes de informação esmiuçaram esta possibilidade, acabou por normalizar o impacto do seu início. É deste poder a que me refiro neste texto. Vamos ter a possibilidade única na História de acompanharmos todo o seu desenrolar, avanços, recuos, ameaças, diálogos, mortes, comunicados, pressões, e, desejamos rapidamente, o seu desfecho. Mas até lá vamos estar expostos, como nunca estivemos, a demasiada informação. Este texto é apenas sobre isto: o excesso de informação leva-nos a uma profusão de pequenas ‘guerras’ interiores que não poderemos viver diariamente. Não se trata de enfiar a cabeça na areia e fingir que nada está a acontecer. Está a acontecer e bem perto de nós. Devemos estar informados e ter o conhecimento exato do que irá suceder-se a partir daqui, mas apenas o conhecimento exato. Nem mais, nem menos. Que não se caia na tentação de viver ao minuto este acontecimento horrendo, só porque temos meios para isso, até porque grande parte da informação será redundante (e muito dela, pouco factual, manipulada, inexata). Penso que se resumirmos a nossa atenção aos telejornais diários será suficiente. Infelizmente, se algo aterrador acontecer, sabê-lo-emos na mesma. Mais do que isso, é alimentar uma segunda guerra na nossa mente, porque parece ser hoje obrigatório saber de tudo no minuto seguinte. Só estaremos a alimentar fantasmas, acicatar receios, empolar desconfortos. Se queremos dobrar a intensidade com que vivemos este tempo, que o façamos de outro modo: a trabalhar com brio e felizes por ainda o podermos fazer; a amar cada vez mais os nossos, porque ainda o poderemos fazer; a continuar os nossos hobbies, porque ainda o poderemos fazer; a sorrir, a conversar, a aprender, a partilhar e, acima de tudo, viver com enorme gratidão pelo privilégio de ainda podermos continuar a fazer todas estas coisas. Não multipliquemos a força desta guerra dentro de nós.

Apontamentos #15

"Sem contacto corporal não se criam vínculos". É o alerta deixado por Byung-Chul Han, no seu mais recente livro Não-Coisas. Ultrapassou-se a ideia do ter para consumir. O consumismo, nestes tempos acelerados, parece ser já ideia ultrapassada. Porque mais do que ter coisas ou simplesmente possuí-las, será vivê-las, experienciá-las. Deixamos, portanto, que a nossa realização pessoal dependa da excitação que se ganha ao viver com tal coisa e não apenas por possuí-la. Não queremos usar um relógio de marca para nos sentirmos superiores. Queremos usá-lo porque ele nos promete uma experiência, um estado de espírito, uma aventura sensorial. É algo que ultrapassa o objeto em si mesmo. A luta desenfreada passará por tudo aquilo que as não-coisas nos prometem. Voltamos ao assunto de sempre? Claro que voltamos. Lá ao longe acenam-se quatro dias de trabalho por semana, um ordenado garantido, para que estejamos finalmente libertos para experienciar tudo o que a AI irá ainda inventar. A nossa escolha, que julgaremos resultado da nossa mais íntima decisão (a falência do livre-arbítrio), estará sempre condicionada com o que nos será dado a selecionar. Debater-nos-emos? Não. Porque o algoritmo conhecerá tanto de nós que será capaz de prever acertadamente, quando ainda nos julgamos indecisos a olhar para as hipóteses. Vi algures um cartoon com duas amigas a conversar, onde uma delas dizia: "O homem estava ali sentado na esplanada, sozinho, a olhar para as pessoas que passavam, para a rua e para as árvores, meio a sorrir, imóvel,  e não fazia nada, nada, apenas estava ali sozinho sentado, nem sequer pegava no telemóvel. Parecia um psicopata!"  Muito dizia esta vinheta, porque hoje se estranha quem simplesmente está, e quem foge do seu mundo fechado que se reflete no ecrã do seu smartphone, é já considerado um exótico, malicioso, excêntrico enfim, perigoso. Byung-Chul Han chega a chamar-nos de Phono Sapiens. Enquanto espero que o treino de ténis do meu filho termine, dedico-me à pintura de doodles. Se é para me olharem com suspeita, que o façam com o alarde todo.

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Apontamentos #14

Deborah Levy dá uma grande lição: não é a forma que interessa, mas sempre o conteúdo. E dito isto, não há frase que seja artifício, ou militância de carreirista, de malabarista de palavras sem sentido. Qualquer frase diz o que é necessário dizer, sem precisar de umas quantas antes a abrir caminho. O caminho é feito a direito; ou como ela diria, visto que 'caminho é feito a direito' soar vago e batido: Os meus pés conduziam todo o meu corpo para a casa onde eu cresci e tentei ser feliz. Há tanta sinceridade em como se revela ao leitor. Fala-nos ao ouvido num jantar demorado, a espremer até à última gota as garrafas de vinho compradas fora de horas na mercearia dos paquistaneses. E é em toda esta informação desnecessária que reside o ponto alto da sua escrita. Frases que completam ciclos a lembrar os maneirismos do Thomas Bernhard; repetições afinal essenciais para nos lembrar que o quadro tem várias pinceladas e várias cores (desconstruir a gestalt ). E ainda uma simplicidade despojada. A grande urdidura está nos olhos dos personagens, nos modos, nas entoações de voz, na política, na emancipação da mulher. Talvez seja essa aspereza que envolva tudo subitamente num halo de catarse; a infância a galopar como um frémito, obrigando-nos a uma dança desengonçada, como se a mente ao chegar aos seus lugares mais reconditos necessitasse da ajuda de todo o corpo. Que bela é a escrita de alguém que dança nua à luz e calor da fogueira, revirando os olhos até ao branco máximo das órbitas.

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