Apontamentos #13
Nada haveria sem memória. Nem sequer o presente, um espaço a acontecer e a comer-se a si mesmo. As capacidades que temos em memorizar são uma dádiva. Não haveria sequer pensamento. Seria como ler uma frase e ao chegar à ultima palavra já não nos lembrarmos da primeira. Sem tempo para dizer isto é isto. Como então censurar quem a use como fonte de criação? Pertence ao belo e as coisas belas quase nem dono têm. Esta é a minha história, mas podia ser a tua. Ou de niguém e pegar-se nela como uma roupa que se veste, acabada de tirar da corda, numa tarde de verão. Não haveria escritores sem a memória, e aí sim o mundo seria pior ainda, mesmo que também não tivesse história para se comparar, e poder dizer que já teve melhores dias. A memória é o mundo dos escritores. Veste-se o mundo com a memória dos livros. Os livros de verão tirados da corda acabados de enxugar, algumas letras ainda molhadas, a dizerem isto é isto. Lembro-me perfeitamente. Sem ela seríamos uma dança permanente ao som dos Idles.