Apontamentos #12
Faço da memória um cavalo cansado. Afunilo os flancos no seu dorso, galopo em picadeiro sem vedação, o terreno aberto parece quase área de voo e sem permitir o trote gracioso, esfalfo a história. A memória torna-se um objecto, amuleto, figura sacra no oratório último. Mas também fonte de prazer, promíscua, banalizando a facilidade, a vulgaridade com que se abre e se deixa partilhar. Que herança maior? O futuro em aberto nunca será tão luminoso quanto a noite de maior bréu já vivida e que se tornou identidade, pele, perfume. É preferir o facto à hipótese. Mas é preciso a distância necessária para evitar o julgamento. A balança das contas é jogo que ainda mói, e de onde se sai sempre a perder. Só tempo traz o desprendimento, a libertação, a clivagem necessária para olharmos para trás sem que se sinta a vertigem de voltar a cair no pólo magnetizador. E quando o assombro se transmuda em laivos de melancolia, uma tristeza indefinida, quase intocável, subimos ao cavalo, afagamos-lhe a crina e toca. O vento no rosto ajuda à simulação, uma máquina do tempo interina, agitam-se canaviais, reverberam ondas, arrefece-se nas praias da noite. Pense-se no frio de quando se passa a noite num automóvel. Um frio tutânico, visceral, insuportável. Efeitos colaterais da viagem, talvez. Como não perdoar o corpo que peça amparo e conforto? Ainda que se coma mais do que nos oferecem na tijela.