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o mundo quieto

o mundo quieto

Apontamentos #9

Dois ramos de flores. Na bifurcação central do cemitério acontece a primeira escolha. Seguindo pela direita, sobe-se até ao último talhão. Uma jarra aos pés e outra à cabeça. A terra secou, não chove há alguns dias, e ficou dura a ponto de não se conseguir espetar uma simples gerbera ao alto, junto à tabuleta negra com o número a branco. Reparto um dos ramos pelas duas jarras, coloco pequenos seixos para que não voem. O segundo ramo será mais abaixo. Ficaram quase juntos. Acredito que vagueiem em pequenos passeios durante a noite, habitando um bardo mais tranquilizador que a própria eternidade. Falarão de algumas coisas. Eu próprio falo em voz alta, a máscara permite-me ter esse monólogo audível sem receio de outros olhares. Recapitulo alguns dos episódios mais marcantes, a maior parte deles em imagens insignificantes, do quotidiano. Ir aos correios levantar a reforma, tocar no botão vermelho do autocarro quando íamos às compras, colocar a mão no vidro do jazigo do santo padre cruz, num mimetismo que a deixava orgulhosa. Aprendi o silêncio em espaços assim. A reverência por algo que se anunciava maior remetia-nos a um lugar na terra ainda mais minúsculo. Mas não me importava. A cidade continuava a bulir, ainda que aparentemente distante, e em cada janela uma possibilidade de histórias por descobrir. Com ele batia records de bolas trocadas na praia. As raquetes de madeira chegavam a cruzar o número das centenas. Desenvolvíamos técnicas de força e posição que deixavam a bola sempre fácil para quem a devolvia. Éramos campeões do nosso próprio campeonato, com as nossas próprias regras, e não competíamos com ninguém. Ao almoço bradávamos a contagem que subia a cada verão. Era a nossa forma de rezar. Era tão alto e corpulento que quase me esmagava quando num acesso de ternura me abraçava sofregamente. Eu fugia-lhe fingindo-me enfadado. Hoje não lhe fugiria. Enfim, falava da aprendizagem do silêncio. Dos corredores encerados do seminário de Penafirme ao seminário de Gouveia. Uma manhã fizeram-me um teste psicotécnico para avaliar a minha propensão para o sacerdócio. Imagino as variáveis. Muito receptivo na arte do silêncio e do recato assim como na infração do celibato. Estava ditada a sentença em me tornar um excelente amante. Silencioso e competente. Mas isto já não falo em voz alta. São pensamentos que se infiltram na sequência. Na linguagem binária chamam-se pacotes com erros. 

Apontamentos #8

O que te sobrou da viagem? A memória, que um dia evocarás como uma herança pilhada à própria vida? As estações do ano devolvem-te o tempo de espera, nessa estrada onde se cruzam diferentes alternativas. Nunca ousaste voltar atrás, é um facto. Mas quantas vezes erraste a lição? Não saberiam os teus pés há muito que caminho seguir? O que te fica? O pouco que deixas nos outros? E se nunca mais os encontrares para que te possam retribuir o que de  ti algures no tempo resolveste partilhar? Quase nada. Muito pouco. Entre sombras, esquinas, passeios molhados, entradas de prédios, foste vulto, animal espantado pelos passos estranhos de alguém que já não devia passar àquela hora pela rua. O que te fica? Um frio permanente, o céu violáceo, as luzes mortiças de uma cidade próxima. Antigamente os cafés serviam-te de casa. Entravas com boas-noites como se te sentasses num sofá a ver televisão depois de um dia de trabalho. Serviam-te com a mesma distância familiar de quem não quer incomodar e entre mãos no rosto consumias horas até te deitares. Que estrondo era o mundo de então. Uma avalanche de mistérios insondáveis, frutas exóticas a despertar o palato, roupas que se vestem para ter a certeza de que não nos servem. E nesse tempo, havia verdade? Ainda que permanecesses quieto sempre no mesmo sítio? Quantas perguntas ainda faltarão o teu silêncio responder? Acreditavas que seria assim a melhor forma de aprender o ofício. A caneta enchia cadernos com a mesmo precisão de um escopro, trabalhando um pedaço de madeira esquecido que sobrevivera à última queimada. Pouco sabias de ti. Quase o mesmo que sabes hoje. Tacteias em busca de uma novidade, de uma qualidade última que te sirva de plena salvação. Sim, eras o primeiro a chegar e o último a sair. Medias a movida com olhos de engenheiro, calculavas o espaço e esforço, a resistência dos materiais, os corpos rejuvenescidos pelo engano. É tempo de falar sobre esse tempo. Apenas para que entendas que, afinal, nada mudou. A fome é a mesma. O assombro também. Ficou o equívoco como nome do meio. Havia a desculpa a raiar em afirmação. Não se conta um das minúsculas partes separadas que foste. Repara como sou capaz de falar de tudo sem que nada te diga em concreto. Mas estão aqui, entre as fissuras da memória, em feridas mal suturadas, o que se revolve desses tempos e me chega feito filme amarelecido. E regresso ao automóvel de faróis acesos para a Praia Azul, a esse frio imenso - solidão já tão entranhada - de se viver com a permanente sensação de perda. Regressam as fotografias cobertas de poeira. Um quadro no alto do quarto. Uma vivenda virada à chuva de Fevereiro. Não, uma bicicleta a percorrer as casas da Nazaré, uma cabine telefónica a planearem-se fugas e encontros. O café da manhã à espera que as lojas abrissem. E à noite tudo igual, ou seja, corpo sem nome dedicado à febre. Acendia cigarros. Demorava-me tanto nesse gesto que por vezes os filtros se colavam aos lábios. Tudo era pensado cinematograficamente. Um dia chegarei lá. O texto que se alongue e respire por si mesmo. Já não conto marés, nem horários de autocarro nas estações de camionagem. Resta-me a fuligem, a patine, a corrosão. No fundo, o que já almejava tão mais fugidio quanto sitiado. 

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