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o mundo quieto

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Apontamentos #7

IMG_20180825_191945.jpgAtravés das conversas escritas entre Haruki Murakami e o maestro Ozawa, no livro Absolutely on Music, numa lindíssima edição da Vintage, redescobri a pianista também japonesa Mitsuko Uchida. Irrepreensível, de notas claras e seguras e com uma noção de ritmo implacável. Penso não se tratar de uma interpretação de voz própria, mas totalmente dedicada à voz genesíaca do compositor. Na obra de Beethoven, Concerto para Piano Nº3 em Dó Menor, a clareza de todas as notas, ainda que em oitavas mais graves, oferece ao ouvinte uma segurança tão sólida, que é impossível não nos deixarmos render à simples audição da obra, sem cair na habitual tentação de julgar se se poderia atacar desta ou daquela forma uma ou outra nota. Os arpejos são precisos ritmicamente, as escalas cristalinas, as pausas respirações acertadas, também elas sons e música. Sem o mistério de Martha Argerich ou o romantismo de Hélène Grimaud, faz o segundo movimento com uma doçura e delicadeza mecânicas, deixando bem definidas as notas sem pedal, criando assim uma atmosfera tão intimista que parece estar a tocar na nossa própria sala.

As conversas entre escritor e maestro são tão despretensiosas que nos sentimos incluídos facilmente. Há apenas o prazer em ouvir as mesmas obras, mas por intérpretes e condutores diferentes; sentir a textura da orquestra, constatar que nesta imperam os sopros e naquela a camada sonora das cordas. Se o maestro cede lugar ao pianista nos ataques ou se é o pianista que se molda ao tempo do sustenido da orquestra. Ouvir as várias camadas instrumentais, as tão saborosas combinações entre oboé, clarinete e flauta, o jogo entre violinos e violas, o conforto dos arcos nos contrabaixos.

Como é possível ficar indiferente a uma beleza tão única? A um acontecimento tão raro e irrepetível? Desperta-se o nosso gosto pelo Belo, pela tentativa do Perfeito, por tudo o que é imaculado. Eu sigo a conversa página a página, e em vez de estar a ler inglês, daria tudo para os ouvir em japonês, mesmo não entendendo uma única palavra. Ouviria as obras que o Murakami escolheria na infinidade de discos e ficaria a imaginar o resto na minha cabeça, observando os gestos bruscos mas comunicativos de Ozawa.

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