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o mundo quieto

o mundo quieto

Apontamentos #5

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Há vários meses que se senta na esquina da Rua Tomás Ribeiro com a Avenida Fontes Pereira de Melo, próximo da entrada para o metro de Picoas. Não falta um dia. Mesmo que chova, resguarda-se um pouco melhor sob o varandim do prédio. Carrega consigo uma mochila desportiva e um saco com cobertores, que dobra em rectângulos perfeitos antes de se sentar sobre eles. Chega pelas 9 horas da manhã e ali fica o dia inteiro, a ler. Coloca à sua frente um copo de plástico azul pronto a receber moedas de quem passa. O rosto rubicundo pelo frio e pelo sol, louras melenas escorridas pela humidade e um piercing no sobrolho ajudam a compor um rosto de ar vagamente escandinavo. As roupas – certamente oferecidas - estão limpas, embora desajustadas ao seu corpo. Todos os livros que lê são de língua portuguesa, requisitados numa qualquer biblioteca, com os selos de arquivo ao fundo das lombadas. Lê em voz alta, ainda que as palavras sejam impercetíveis, movendo os lábios a cada sílaba, treinando o idioma e a pronúncia. Desde o primeiro dia que nutro curiosidade por esta figura. Chamo-o mentalmente de O Leitor. Quando almoço por volta do meio-dia encontro-o já sentado na esplanada do mesmo restaurante. Nunca entra para o conforto do ar condicionado. Pede sopa onde mergulha os pedaços de uma carcaça e o prato do dia que come calmamente. Quando termina, paga, levanta-se e volta a dar os dez passos até ao seu lugar, onde se senta novamente sobre os cobertores, para ler a tarde inteira. Se cruzamos o nosso olhar com o seu, não existe o mínimo vislumbre de submissão ou mesura; há até uma frieza assustadiça de um animal surpreendido numa clareira. Qual será o verdadeiro propósito de alguém que decide mendigar apenas para ler? Revejo um niilismo profundo neste acto. Encher a nossa breve passagem com o maior número de palavras possível, experienciando através de personagens, tramas e culturas o maior número de existências que nunca conseguiremos viver. Decidir viver tudo, porque na verdade, quase nada se pode viver. Aceitar esta falha – desistência - existencial com a procura de tudo o que possa preenchê-la. Nunca lhe dei uma moeda durante estes meses. Nunca me comoveu com a fragilidade dos necessitados. Mas não fará sentido, afinal, dar uma moeda a alguém que encontrou na Literatura uma forma de vida? Um dia ganho coragem e peço-lhe que se deixe fotografar, que me conte de onde vem, por quanto tempo decidiu mendigar para ler, o que pensa da família e dos conceitos que a sociedade inventa e coloca em prática. Mas sei que terei um ser vivo cheio de vida pronto a partilhar vida e a responder-me vivamente o que pensa. E por enquanto, gosto de imaginá-lo como uma pedra, que sem incomodar ninguém, numa permanente posição meditativa, devolve e preenche com uma sábia beleza os dias vazios de quem a olha.

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