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o mundo quieto

o mundo quieto

Apontamentos #4


A pianista Martha Argerich recorda-me dos corpos femininos de Paula Rego. Torso e membros largos. As mãos que completam os grossos antebraços, lembram um gigantismo de fábulas; dramáticos os nós que ligam os metacarpos às falanges proeminentes. Mas em todos esses corpos pressente-se um halo etéreo, uma silente magia por descobrir, que nos impele e ao mesmo tempo arrebata.

Depois acontece o movimento. E como alguém que tenha apertado o botão de um mecanismo oculto, as mesmas mãos esteticamente brutas revelam-se capazes da mais harmoniosa dança sobre as teclas, muitas vezes impiedosas e rudes, mas quase sempre delicadas e afectuosas. São mãos de mãe que tratam a ferida do filho que se magoou a brincar nos campos. Mãos que ao mesmo tempo repreendem e apaziguam.

Apontamentos #3

Existe uma postura no yôga que me é muito importante. O ásana da árvore é das coisas mais simples de fazer e traz consigo um profundo ensinamento; a noção do nosso próprio equilíbrio. De pés descalços, porque é fundamental a ligação da pele com o solo, e unidos, para melhor sentirmos as ligeiras oscilaçoes do nosso peso corporal. O tronco totalmente erecto com os braços caídos. As mãos unidas a cada uma das pernas. Visualmente, tentamos que o nosso corpo imite o tronco de uma árvore. Interiormente, e aqui começa a beleza de tudo isto, descobrem-se inúmeras forças inesperadas que nos obrigam a procurar o equilíbrio para nos mantermos erectos. Quando confortáveis, e de respiração já tranquila, podemos ainda fechar os olhos e aumentar a sensação de ser necessário não perdermos a concentração e, por conseguinte, o equilíbrio.

Pensemos nesta simples prática como um aquecimento para as contrariedades do dia. Não é possível que nos permitamos andar ao sabor dos ventos inesperados que preenchem o nosso quotidiano. Mais do que controlar o corpo, é alertar a mente e treiná-la para que nunca se perca a nossa rectidão de tronco de árvore. É claro que falo mais do que um simples exercício de yôga; é claro que ser árvore é uma metáfora e apenas um enquadramento do que pretendo que seja pensado.

Apontamentos #2

Inesgotáveis as conclusões que se poderão retirar da obra de Thomas Mann, A Montanha Mágica. O homem perante a doença, tornando-se consciente da sua vulnerabilidade, adquire novas camadas de profundidade como ser humano. Um engenheiro naval, de raciocínios objectivo e prático, transforma-se num personagem filosófico, num potencial sociólogo, interessado por botânica, propenso à meditação, sensível à música, romântico pelas breves e banais belezas do quotidiano. O seu espectro de interesses alarga-se como a abertura de um gigantesco leque, tudo apenas porque pressente em si a fragilidade do seu ser físico. Aquele que fora um burguês afectado e impiedoso nas interpretações do seu próximo, emociona-se consigo mesmo na condescendência e aceitação que se revela afinal capaz. É uma mudança interior sem tempo, história ou religião. Capaz de se realizar em cada um de nós, transformando-nos irreversivelmente. Houvesse a obrigatoriedade da permanência em montanhas assim, um tempo dedicado ao auto-encontro e reconhecimento, e o ser humano subiria um degrau na sua capacidade de melhor entender o próximo.

Apontamentos #1

É fácil duvidarmos da velocidade do mundo e de quais, afinal, serão os benefícios que encontraremos nela. Os dias pulsam a um ritmo exacerbado. Ainda que tentemos acompanhar a surpreendente quantidade de informação, fingindo por momentos aceitar as regras do jogo, chegará sempre o momento da desistência, uma falta de fôlego de quem corre mais do que verdadeiramente consegue. Não nos espantemos de quem desista do mundo a que chamamos de real. Enumero quem procure campos de retiro, religiosos ou não. Quem abandone as grandes cidades e reaprenda a viver como há três gerações atrás. Ou, em última instância, quem não se mova de onde sempre esteve, mas que mergulhe num isolamento que vislumbra como espécie de última salvação.

Virarmo-nos para um mundo interior, construído à nossa medida, passa de opção a necessidade. Este ruído desenfreado de conteúdos, e por sabê-los muitos deles logros de informação, artifícios que apenas alimentam uma máquina que não pode parar, contraria a nossa necessidade básica da busca do conhecimento. Este é o momento. Desistir do novo conhecimento parece, absurdamente, a solução.

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