Apontamentos #8
O que te sobrou da viagem? A memória, que um dia evocarás como uma herança pilhada à própria vida? As estações do ano devolvem-te o tempo de espera, nessa estrada onde se cruzam diferentes alternativas. Nunca ousaste voltar atrás, é um facto. Mas quantas vezes erraste a lição? Não saberiam os teus pés há muito que caminho seguir? O que te fica? O pouco que deixas nos outros? E se nunca mais os encontrares para que te possam retribuir o que de ti algures no tempo resolveste partilhar? Quase nada. Muito pouco. Entre sombras, esquinas, passeios molhados, entradas de prédios, foste vulto, animal espantado pelos passos estranhos de alguém que já não devia passar àquela hora pela rua. O que te fica? Um frio permanente, o céu violáceo, as luzes mortiças de uma cidade próxima. Antigamente os cafés serviam-te de casa. Entravas com boas-noites como se te sentasses num sofá a ver televisão depois de um dia de trabalho. Serviam-te com a mesma distância familiar de quem não quer incomodar e entre mãos no rosto consumias horas até te deitares. Que estrondo era o mundo de então. Uma avalanche de mistérios insondáveis, frutas exóticas a despertar o palato, roupas que se vestem para ter a certeza de que não nos servem. E nesse tempo, havia verdade? Ainda que permanecesses quieto sempre no mesmo sítio? Quantas perguntas ainda faltarão o teu silêncio responder? Acreditavas que seria assim a melhor forma de aprender o ofício. A caneta enchia cadernos com a mesmo precisão de um escopro, trabalhando um pedaço de madeira esquecido que sobrevivera à última queimada. Pouco sabias de ti. Quase o mesmo que sabes hoje. Tacteias em busca de uma novidade, de uma qualidade última que te sirva de plena salvação. Sim, eras o primeiro a chegar e o último a sair. Medias a movida com olhos de engenheiro, calculavas o espaço e esforço, a resistência dos materiais, os corpos rejuvenescidos pelo engano. É tempo de falar sobre esse tempo. Apenas para que entendas que, afinal, nada mudou. A fome é a mesma. O assombro também. Ficou o equívoco como nome do meio. Havia a desculpa a raiar em afirmação. Não se conta um das minúsculas partes separadas que foste. Repara como sou capaz de falar de tudo sem que nada te diga em concreto. Mas estão aqui, entre as fissuras da memória, em feridas mal suturadas, o que se revolve desses tempos e me chega feito filme amarelecido. E regresso ao automóvel de faróis acesos para a Praia Azul, a esse frio imenso - solidão já tão entranhada - de se viver com a permanente sensação de perda. Regressam as fotografias cobertas de poeira. Um quadro no alto do quarto. Uma vivenda virada à chuva de Fevereiro. Não, uma bicicleta a percorrer as casas da Nazaré, uma cabine telefónica a planearem-se fugas e encontros. O café da manhã à espera que as lojas abrissem. E à noite tudo igual, ou seja, corpo sem nome dedicado à febre. Acendia cigarros. Demorava-me tanto nesse gesto que por vezes os filtros se colavam aos lábios. Tudo era pensado cinematograficamente. Um dia chegarei lá. O texto que se alongue e respire por si mesmo. Já não conto marés, nem horários de autocarro nas estações de camionagem. Resta-me a fuligem, a patine, a corrosão. No fundo, o que já almejava tão mais fugidio quanto sitiado.