#11
Nasciam-te poemas nos gestos
tão dissimulados quanto vultos à boca da noite.
Mas eu senti-os e acreditava neles
como se fossem escritos apenas para mim.
E em muitas estações foram o parco alimento
a derradeira luz
a última carta da ronda da semana.
Podiam ser praias ventosas de inverno
ou clareiras extenuantes de verão.
Em todos eles eu inventava mensagens codificadas,
labirintos, a linha fria do mármore.
Depois, muito a custo, acordei em mim várias manhãs.
Obriguei o corpo a viver com os seus semelhantes,
ciente de que apagaria a já sumida e cansada claridade.
Eu dizia que a vida era a fuligem do cansaço dos dias,
e previsivelmente,
achei-me também eu cansado de ler os poemas que não existiam.