Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

o mundo quieto

o mundo quieto

Apontamentos #11

Voltar a ser sombra. O vento uma única música a preencher o vazio do corpo, todo ele respiração. Quase não se move, apenas o necessário para o ar encontrar um espaço por onde passar. Ser silhueta é fazer morada no silêncio. Largar os pertences num canto, não lhes dizer dia de volta. Deambular continuamente como um aroma. Coco, lima, anis, jasmim, perfumes que perdurem e reverberem na imaginação. Não ocupar espaço algum, dizer não a um nome pelo qual nos possam chamar. Não ouvir qualquer nome com a intenção de nos chamar, de nos trazer de volta. Não ter razões para querer estar de volta. É possível caminhar dia e noite à procura deste vazio. Fi-lo anos a fio pelos corpos indesejados, à espera que o certo me chegasse de vez, me apanhasse num todo, me atropelasse feito certeza de que se tem fome. De que valeu a espera? Janelas abertas a um sol incómodo, persistente. Eu só queria um silêncio onde adormecer e acordar sem sobressalto. Fiz da espera uma idade displicente, cortava valor à importância da paisagem em redor. Deve ser assim a velhice, um estar esquivo de quem só sabe fugir. Olhar de frente a verdade e fingirmo-nos ausentes, imperturbáveis, inacessíveis. Adiei a tarde de primavera em que ao sentar na relva fresca se resume o impossível de nomear. E assim se deixa de acreditar nas tardes plácidas de março, nos reflexos prata da água que o tridente esguicha pelas nereides, lagos marmóreos que nos cegam quando a luz incide. Acredita-se nos jardins como uma fé sem deus. Há criação e morte, desordem e abandono. Mas também harmonia, embora tão devagar que nunca se tem tempo para a ver acontecer. São assim os jardins secretos. Não porque nos escondemos neles. Decidimos ser sombra, arte plausível até no horto mais descuidado, no baldio traseiro da indústria abandonada. Por vezes, há apenas o odor do óleo batido pelo calor, de uma azeda de berma apertada entre os dedos. Se formos eficazes no abandono, tudo acabará por nos servir. Passamos de exigentes a contemplativos sem transtorno maior, enfeitiçados. E não será essa a cegueira que se procura? Porque assim há a razão que nos falta em tudo o resto. Custa menos concluir que a vida é apenas isto. A vida é apenas isto? É isto viver? Mantra que enlouquece a boca e baralha o pensamento. A doce e fatal tentação da sombra. Ser espírito, ideia de poema, seiva de timbre. Habitar o imaterial, ser fluxo e gesto, ser pensamento sem palavra, conversa sem diálogo. A melhor casa do mundo, o esquecimento da sombra. Ser-se omnipresente, por fim. É conhecido que nos preenche mais tudo aquilo que nos falta. Acontece uma ligeira comoção nesta descoberta. São estes os axiomas que mais nos ferem. Quero dizer muito do que não fui. É preciso ter idade para isso. E o dia chega em que somos mais aquilo que não fomos do que o contrário. Transformamo-nos num conceito, teorema, projecto. 

Apontamentos #10

Já tudo se disse sobre os perfumes. Süskind além de ter escrito um livro que todos gostámos de ler, escreveu um livro que todos gostaríamos de ter escrito. Se uma ideia poderá ter princípio e fim, tê-lo-á alcançado nesse objeto de arte. Resta a experiência própria dos odores, uma vivência intrínseca, músicas que cada um ouve sem possibilidade de testemunhá-las ao outro. A fragância transmuta-se no imaginário e ganha peles caleidoscópicas, habitáculo intricado de memórias únicas, visões irrepetíveis na tela fílmica que transportamos no interior. Classe!, diria o Ruben A., numa tentativa infrutífera do tanto para dizer, rematando a conversa nessa interjeição; esgotado de tentativas, de palavras a rodear o indizível.

O possível de acrescentar é apenas uma visão episódica e pessoal. Facto extraordinário sucedido pelo ano de 1995, no meu primeiro carro, carta acabada de tirar no início desse verão, liberdade com pulso sem instrumento de medição possível. À falta de redes sociais, abordava-se com o coração nas mãos feito poema caligrafado em folhas A4. O famoso send obrigava dirigirmo-nos a alguém pessoalmente, olhos nos olhos, sorrir, conversar, antever em poucos segundos a ínfima possibilidade de êxito. No verso do poema o número de casa. Entregava-se em mãos esse tesouro quase sempre escrito na urgência do impulso. Depois era esperar. Um, dois, três dias. Algumas vezes o telefone tocava e sabia-se finalmente que a sorte nos calhara.

Mas findou-se o verão sem telefonema. Foram precisas as primeiras chuvas do outono, uma enorme dose de tédio e uma inesperada saudade pelos dias fulgurantes para se ter decido a telefonar-me. Cheguei-lhe à lembrança e lá discou o número no poema guardado entre as folhas de um livro que nunca acabara de ler. Sabia-me sobra das tardes de Julho, mas eu jogava seguro nos dias molhados; dava-me melhor comigo mesmo nas atmosferas cinzentas, e agora até adornado por um carro mais velho do que a minha própria idade. E foi nele que falámos noite dentro. A chuva a castigar o para-brisas. Numa aberta, ainda tentámos o jardim intricado. Terá sido aí um primeiro beijo, uma detonação a sacudir o corpo. Mas foi no carro que tudo o resto se inventara. Colmeia agitada, Kawabata estendido no tatami incendiado por púberes, vapor de sauna portátil, aquário fumegante.  

Sabia-me sobra do verão mas julguei-me início de um próximo inverno quente e condicente com o tanto que se apostara nessa noite. Afinal fogacho de um braseiro que a chuva apagou. Nunca mais a vira, nunca mais me ligara. Não havia desamigar a comprovar que tínhamos falhado. Talvez se tenha proposto exceder-se apenas por uma noite. Ficara-me então o seu perfume. Não no meu corpo, porque todo camaleónico era acessível a novas histórias por escrever. Mas a sua fragrância, essa, alojara-se a termo incerto nos estofos, nas fibras da consola de instrumentos, no tecido dos cintos de segurança, na aspereza dos tapetes, nos plásticos das manetes, no forro do tejadilho, na chapeleira. O meu automóvel vira-se alagado por aquele aroma que teimava em não sair. Por vezes, conseguia esquecer-me dele. Mas num dia de mais calor, no abrir de portas, voltava reativada a recordação sudorífera daquela noite de outubro.

A coragem do meu poema revelara-se insuficiente perante tamanha destreza entre aparecer das sombras e através das mesmas ousar desvanecer-se.

Apontamentos #9

Dois ramos de flores. Na bifurcação central do cemitério acontece a primeira escolha. Seguindo pela direita, sobe-se até ao último talhão. Uma jarra aos pés e outra à cabeça. A terra secou, não chove há alguns dias, e ficou dura a ponto de não se conseguir espetar uma simples gerbera ao alto, junto à tabuleta negra com o número a branco. Reparto um dos ramos pelas duas jarras, coloco pequenos seixos para que não voem. O segundo ramo será mais abaixo. Ficaram quase juntos. Acredito que vagueiem em pequenos passeios durante a noite, habitando um bardo mais tranquilizador que a própria eternidade. Falarão de algumas coisas. Eu próprio falo em voz alta, a máscara permite-me ter esse monólogo audível sem receio de outros olhares. Recapitulo alguns dos episódios mais marcantes, a maior parte deles em imagens insignificantes, do quotidiano. Ir aos correios levantar a reforma, tocar no botão vermelho do autocarro quando íamos às compras, colocar a mão no vidro do jazigo do santo padre cruz, num mimetismo que a deixava orgulhosa. Aprendi o silêncio em espaços assim. A reverência por algo que se anunciava maior remetia-nos a um lugar na terra ainda mais minúsculo. Mas não me importava. A cidade continuava a bulir, ainda que aparentemente distante, e em cada janela uma possibilidade de histórias por descobrir. Com ele batia records de bolas trocadas na praia. As raquetes de madeira chegavam a cruzar o número das centenas. Desenvolvíamos técnicas de força e posição que deixavam a bola sempre fácil para quem a devolvia. Éramos campeões do nosso próprio campeonato, com as nossas próprias regras, e não competíamos com ninguém. Ao almoço bradávamos a contagem que subia a cada verão. Era a nossa forma de rezar. Era tão alto e corpulento que quase me esmagava quando num acesso de ternura me abraçava sofregamente. Eu fugia-lhe fingindo-me enfadado. Hoje não lhe fugiria. Enfim, falava da aprendizagem do silêncio. Dos corredores encerados do seminário de Penafirme ao seminário de Gouveia. Uma manhã fizeram-me um teste psicotécnico para avaliar a minha propensão para o sacerdócio. Imagino as variáveis. Muito receptivo na arte do silêncio e do recato assim como na infração do celibato. Estava ditada a sentença em me tornar um excelente amante. Silencioso e competente. Mas isto já não falo em voz alta. São pensamentos que se infiltram na sequência. Na linguagem binária chamam-se pacotes com erros. 

Apontamentos #8

O que te sobrou da viagem? A memória, que um dia evocarás como uma herança pilhada à própria vida? As estações do ano devolvem-te o tempo de espera, nessa estrada onde se cruzam diferentes alternativas. Nunca ousaste voltar atrás, é um facto. Mas quantas vezes erraste a lição? Não saberiam os teus pés há muito que caminho seguir? O que te fica? O pouco que deixas nos outros? E se nunca mais os encontrares para que te possam retribuir o que de  ti algures no tempo resolveste partilhar? Quase nada. Muito pouco. Entre sombras, esquinas, passeios molhados, entradas de prédios, foste vulto, animal espantado pelos passos estranhos de alguém que já não devia passar àquela hora pela rua. O que te fica? Um frio permanente, o céu violáceo, as luzes mortiças de uma cidade próxima. Antigamente os cafés serviam-te de casa. Entravas com boas-noites como se te sentasses num sofá a ver televisão depois de um dia de trabalho. Serviam-te com a mesma distância familiar de quem não quer incomodar e entre mãos no rosto consumias horas até te deitares. Que estrondo era o mundo de então. Uma avalanche de mistérios insondáveis, frutas exóticas a despertar o palato, roupas que se vestem para ter a certeza de que não nos servem. E nesse tempo, havia verdade? Ainda que permanecesses quieto sempre no mesmo sítio? Quantas perguntas ainda faltarão o teu silêncio responder? Acreditavas que seria assim a melhor forma de aprender o ofício. A caneta enchia cadernos com a mesmo precisão de um escopro, trabalhando um pedaço de madeira esquecido que sobrevivera à última queimada. Pouco sabias de ti. Quase o mesmo que sabes hoje. Tacteias em busca de uma novidade, de uma qualidade última que te sirva de plena salvação. Sim, eras o primeiro a chegar e o último a sair. Medias a movida com olhos de engenheiro, calculavas o espaço e esforço, a resistência dos materiais, os corpos rejuvenescidos pelo engano. É tempo de falar sobre esse tempo. Apenas para que entendas que, afinal, nada mudou. A fome é a mesma. O assombro também. Ficou o equívoco como nome do meio. Havia a desculpa a raiar em afirmação. Não se conta um das minúsculas partes separadas que foste. Repara como sou capaz de falar de tudo sem que nada te diga em concreto. Mas estão aqui, entre as fissuras da memória, em feridas mal suturadas, o que se revolve desses tempos e me chega feito filme amarelecido. E regresso ao automóvel de faróis acesos para a Praia Azul, a esse frio imenso - solidão já tão entranhada - de se viver com a permanente sensação de perda. Regressam as fotografias cobertas de poeira. Um quadro no alto do quarto. Uma vivenda virada à chuva de Fevereiro. Não, uma bicicleta a percorrer as casas da Nazaré, uma cabine telefónica a planearem-se fugas e encontros. O café da manhã à espera que as lojas abrissem. E à noite tudo igual, ou seja, corpo sem nome dedicado à febre. Acendia cigarros. Demorava-me tanto nesse gesto que por vezes os filtros se colavam aos lábios. Tudo era pensado cinematograficamente. Um dia chegarei lá. O texto que se alongue e respire por si mesmo. Já não conto marés, nem horários de autocarro nas estações de camionagem. Resta-me a fuligem, a patine, a corrosão. No fundo, o que já almejava tão mais fugidio quanto sitiado. 

#11

Nasciam-te poemas nos gestos

tão dissimulados quanto vultos à boca da noite.

Mas eu senti-os e acreditava neles

como se fossem escritos apenas para mim.

E em muitas estações foram o parco alimento

a derradeira luz

a última carta da ronda da semana.

Podiam ser praias ventosas de inverno

ou clareiras extenuantes de verão.

Em todos eles eu inventava mensagens codificadas,

labirintos, a linha fria do mármore.

Depois, muito a custo, acordei em mim várias manhãs.

Obriguei o corpo a viver com os seus semelhantes,

ciente de que apagaria a já sumida e cansada claridade.

Eu dizia que a vida era a fuligem do cansaço dos dias,

e previsivelmente,

achei-me também eu cansado de ler os poemas que não existiam.

#8

o tanto que te sorvo de ausência
que julgo água fresca
este cansado ar

 

(o que acrescentam as minhas palavras
ao que nunca foi escrito?)

#7

Imobiliário

 

Façamos como na arquitectura moderna.

Reconstruamos um novo coração e alma

para a nossa fachada em ruínas.

Apontamentos #7

IMG_20180825_191945.jpgAtravés das conversas escritas entre Haruki Murakami e o maestro Ozawa, no livro Absolutely on Music, numa lindíssima edição da Vintage, redescobri a pianista também japonesa Mitsuko Uchida. Irrepreensível, de notas claras e seguras e com uma noção de ritmo implacável. Penso não se tratar de uma interpretação de voz própria, mas totalmente dedicada à voz genesíaca do compositor. Na obra de Beethoven, Concerto para Piano Nº3 em Dó Menor, a clareza de todas as notas, ainda que em oitavas mais graves, oferece ao ouvinte uma segurança tão sólida, que é impossível não nos deixarmos render à simples audição da obra, sem cair na habitual tentação de julgar se se poderia atacar desta ou daquela forma uma ou outra nota. Os arpejos são precisos ritmicamente, as escalas cristalinas, as pausas respirações acertadas, também elas sons e música. Sem o mistério de Martha Argerich ou o romantismo de Hélène Grimaud, faz o segundo movimento com uma doçura e delicadeza mecânicas, deixando bem definidas as notas sem pedal, criando assim uma atmosfera tão intimista que parece estar a tocar na nossa própria sala.

As conversas entre escritor e maestro são tão despretensiosas que nos sentimos incluídos facilmente. Há apenas o prazer em ouvir as mesmas obras, mas por intérpretes e condutores diferentes; sentir a textura da orquestra, constatar que nesta imperam os sopros e naquela a camada sonora das cordas. Se o maestro cede lugar ao pianista nos ataques ou se é o pianista que se molda ao tempo do sustenido da orquestra. Ouvir as várias camadas instrumentais, as tão saborosas combinações entre oboé, clarinete e flauta, o jogo entre violinos e violas, o conforto dos arcos nos contrabaixos.

Como é possível ficar indiferente a uma beleza tão única? A um acontecimento tão raro e irrepetível? Desperta-se o nosso gosto pelo Belo, pela tentativa do Perfeito, por tudo o que é imaculado. Eu sigo a conversa página a página, e em vez de estar a ler inglês, daria tudo para os ouvir em japonês, mesmo não entendendo uma única palavra. Ouviria as obras que o Murakami escolheria na infinidade de discos e ficaria a imaginar o resto na minha cabeça, observando os gestos bruscos mas comunicativos de Ozawa.

#5

Untitled.jpg

 

 

 

 

 

 

 

 

A espada de Judite foi uma lágrima de âmbar

a escorrer-lhe pelo pescoço. Já antes o mesmo

perfume se libertara do lenço deslaçado, para furtiva

entre os abissínios, chegar ao seu leito afogueada.

Porquê as taças de vinho sempre cheias? Os gestos

na falta de melhores palavras? Que metal brilhava 

despontando das cortinas sanguíneas de Caravaggio?

- Que saia a velha! - ordenara finalmente ébrio.

Tanto cansaço a torná-lo cativo, as mãos num

último esforço ao peito túmido, à ferrugem do cabelo,

enfim o beijo violado que o adormeceria de vez.

Assim Judite separou-lhe a cabeça do marmóreo corpo

e tudo se fez frio e silêncio, transtorno e drama.

Viveu-se a madrugada com o tojo crepitando sob os pés.

 

Apontamentos #6

Deixar entrar a luz. Iluminar o gesto, a sombra a bater nas paredes. O movimento transido e a condenação do silêncio. Onde te cabe tanta tristeza nesse pulso trémulo? Na pele quase translúcida a denunciar finos rios azulados? Há a loucura das aves que te tenta, o voo raso à migalha, a expansão em arco quando o vento muda a favor. O belo de todas as coisas frágeis, quase dramáticas. Haverá sempre uma tarde fria onde inventar esta procura. E o que te fica do sol? Um halo intocável de minúsculas partículas douradas levitando diante dos olhos. Não tivesses certeza do silêncio e julgarias vozes a perfurar as janelas, a clamarem o teu nome do lado de fora. As pontas dos dedos encostadas ao vidro gelado. E a comoção a expandir-se desde a garganta como uma fonte a despontar de negras lajes. Enumeras objectos. Papéis amarrotados, um porta-chaves perdido da argola, um frasco minúsculo de perfume. São os despojos possíveis, ninharias, santuários portáteis. Quem fui eu nesta vida? E nesta? Como seria eu para guardar este amuleto desirmanado já da sua própria história? É tudo tão ofensivo nestes momentos. Entender que o pouco que sobra não é também suficente.

Apontamentos #5

DSC_9638.jpg

 

Há vários meses que se senta na esquina da Rua Tomás Ribeiro com a Avenida Fontes Pereira de Melo, próximo da entrada para o metro de Picoas. Não falta um dia. Mesmo que chova, resguarda-se um pouco melhor sob o varandim do prédio. Carrega consigo uma mochila desportiva e um saco com cobertores, que dobra em rectângulos perfeitos antes de se sentar sobre eles. Chega pelas 9 horas da manhã e ali fica o dia inteiro, a ler. Coloca à sua frente um copo de plástico azul pronto a receber moedas de quem passa. O rosto rubicundo pelo frio e pelo sol, louras melenas escorridas pela humidade e um piercing no sobrolho ajudam a compor um rosto de ar vagamente escandinavo. As roupas – certamente oferecidas - estão limpas, embora desajustadas ao seu corpo. Todos os livros que lê são de língua portuguesa, requisitados numa qualquer biblioteca, com os selos de arquivo ao fundo das lombadas. Lê em voz alta, ainda que as palavras sejam impercetíveis, movendo os lábios a cada sílaba, treinando o idioma e a pronúncia. Desde o primeiro dia que nutro curiosidade por esta figura. Chamo-o mentalmente de O Leitor. Quando almoço por volta do meio-dia encontro-o já sentado na esplanada do mesmo restaurante. Nunca entra para o conforto do ar condicionado. Pede sopa onde mergulha os pedaços de uma carcaça e o prato do dia que come calmamente. Quando termina, paga, levanta-se e volta a dar os dez passos até ao seu lugar, onde se senta novamente sobre os cobertores, para ler a tarde inteira. Se cruzamos o nosso olhar com o seu, não existe o mínimo vislumbre de submissão ou mesura; há até uma frieza assustadiça de um animal surpreendido numa clareira. Qual será o verdadeiro propósito de alguém que decide mendigar apenas para ler? Revejo um niilismo profundo neste acto. Encher a nossa breve passagem com o maior número de palavras possível, experienciando através de personagens, tramas e culturas o maior número de existências que nunca conseguiremos viver. Decidir viver tudo, porque na verdade, quase nada se pode viver. Aceitar esta falha – desistência - existencial com a procura de tudo o que possa preenchê-la. Nunca lhe dei uma moeda durante estes meses. Nunca me comoveu com a fragilidade dos necessitados. Mas não fará sentido, afinal, dar uma moeda a alguém que encontrou na Literatura uma forma de vida? Um dia ganho coragem e peço-lhe que se deixe fotografar, que me conte de onde vem, por quanto tempo decidiu mendigar para ler, o que pensa da família e dos conceitos que a sociedade inventa e coloca em prática. Mas sei que terei um ser vivo cheio de vida pronto a partilhar vida e a responder-me vivamente o que pensa. E por enquanto, gosto de imaginá-lo como uma pedra, que sem incomodar ninguém, numa permanente posição meditativa, devolve e preenche com uma sábia beleza os dias vazios de quem a olha.

Apontamentos #4


A pianista Martha Argerich recorda-me dos corpos femininos de Paula Rego. Torso e membros largos. As mãos que completam os grossos antebraços, lembram um gigantismo de fábulas; dramáticos os nós que ligam os metacarpos às falanges proeminentes. Mas em todos esses corpos pressente-se um halo etéreo, uma silente magia por descobrir, que nos impele e ao mesmo tempo arrebata.

Depois acontece o movimento. E como alguém que tenha apertado o botão de um mecanismo oculto, as mesmas mãos esteticamente brutas revelam-se capazes da mais harmoniosa dança sobre as teclas, muitas vezes impiedosas e rudes, mas quase sempre delicadas e afectuosas. São mãos de mãe que tratam a ferida do filho que se magoou a brincar nos campos. Mãos que ao mesmo tempo repreendem e apaziguam.

Apontamentos #3

Existe uma postura no yôga que me é muito importante. O ásana da árvore é das coisas mais simples de fazer e traz consigo um profundo ensinamento; a noção do nosso próprio equilíbrio. De pés descalços, porque é fundamental a ligação da pele com o solo, e unidos, para melhor sentirmos as ligeiras oscilaçoes do nosso peso corporal. O tronco totalmente erecto com os braços caídos. As mãos unidas a cada uma das pernas. Visualmente, tentamos que o nosso corpo imite o tronco de uma árvore. Interiormente, e aqui começa a beleza de tudo isto, descobrem-se inúmeras forças inesperadas que nos obrigam a procurar o equilíbrio para nos mantermos erectos. Quando confortáveis, e de respiração já tranquila, podemos ainda fechar os olhos e aumentar a sensação de ser necessário não perdermos a concentração e, por conseguinte, o equilíbrio.

Pensemos nesta simples prática como um aquecimento para as contrariedades do dia. Não é possível que nos permitamos andar ao sabor dos ventos inesperados que preenchem o nosso quotidiano. Mais do que controlar o corpo, é alertar a mente e treiná-la para que nunca se perca a nossa rectidão de tronco de árvore. É claro que falo mais do que um simples exercício de yôga; é claro que ser árvore é uma metáfora e apenas um enquadramento do que pretendo que seja pensado.

Apontamentos #2

Inesgotáveis as conclusões que se poderão retirar da obra de Thomas Mann, A Montanha Mágica. O homem perante a doença, tornando-se consciente da sua vulnerabilidade, adquire novas camadas de profundidade como ser humano. Um engenheiro naval, de raciocínios objectivo e prático, transforma-se num personagem filosófico, num potencial sociólogo, interessado por botânica, propenso à meditação, sensível à música, romântico pelas breves e banais belezas do quotidiano. O seu espectro de interesses alarga-se como a abertura de um gigantesco leque, tudo apenas porque pressente em si a fragilidade do seu ser físico. Aquele que fora um burguês afectado e impiedoso nas interpretações do seu próximo, emociona-se consigo mesmo na condescendência e aceitação que se revela afinal capaz. É uma mudança interior sem tempo, história ou religião. Capaz de se realizar em cada um de nós, transformando-nos irreversivelmente. Houvesse a obrigatoriedade da permanência em montanhas assim, um tempo dedicado ao auto-encontro e reconhecimento, e o ser humano subiria um degrau na sua capacidade de melhor entender o próximo.

Apontamentos #1

É fácil duvidarmos da velocidade do mundo e de quais, afinal, serão os benefícios que encontraremos nela. Os dias pulsam a um ritmo exacerbado. Ainda que tentemos acompanhar a surpreendente quantidade de informação, fingindo por momentos aceitar as regras do jogo, chegará sempre o momento da desistência, uma falta de fôlego de quem corre mais do que verdadeiramente consegue. Não nos espantemos de quem desista do mundo a que chamamos de real. Enumero quem procure campos de retiro, religiosos ou não. Quem abandone as grandes cidades e reaprenda a viver como há três gerações atrás. Ou, em última instância, quem não se mova de onde sempre esteve, mas que mergulhe num isolamento que vislumbra como espécie de última salvação.

Virarmo-nos para um mundo interior, construído à nossa medida, passa de opção a necessidade. Este ruído desenfreado de conteúdos, e por sabê-los muitos deles logros de informação, artifícios que apenas alimentam uma máquina que não pode parar, contraria a nossa necessidade básica da busca do conhecimento. Este é o momento. Desistir do novo conhecimento parece, absurdamente, a solução.

#1

já foi espaço exíguo
o oco formado pelas nossas bocas

 

de que só resta a poeira do esquecimento

 

o inesperado florescer entre pedras

#37

DSC_3599_baixa.jpgWash me away

clean your body of me

erase all the memories

they will only bring us pain

and I've seen all I'll ever need

 

Matthew Bellamy

#35

DSC_8915.jpg

 dizes: põe nos meus os teus dedos

e passemos os séculos sem rosto,

apaguemos de nossas casas o barulho

do tempo que ardeu sem luz.

sim, cria comigo esse silêncio

que nos faz nus e em nós acende

o lume das árvores de fruto.

 

Vasco Gato

#32

DSC_8254.jpg

 Há por aqui outras paisagens?, perguntam por vezes as crianças.

Eu parto o caminho em pedaços e ofereço-lhes

Serpentinas, serpentinas, que elas recebem como maçãs e papoilas.

Porque tempos houve em que dormíamos nas palavras,

Tempos houve em que fazíamos explodir o tempo.

 

Robert Schindel

#31

DSC_8927.jpg

 e à chegada da noite, tépidas brisas

acariciam as árvores. Imaginamo-las os nossos

corpos despidos, dançando nas sombras

#20

DSC_0465.jpg

nasce com o rumor dos próprios corpos

com o bater dos nomes entre os ombros

tão dóceis mar de músculos

 

Gastão Cruz

#18

DSC_5066.jpg

Trazem as árvores insignificantes

o maior distúrbio aos ventos; arredam-nos,

alçam outros armazéns sonoros

casas de relâmpagos e de cataclismos.

 

Luiza Neto Jorge

#15

DSC_5447.jpg

Ficarão para sempre abertas as minhas
salas negras.
Amarrado à noite,
eu canto com um lírio negro sobre a boca.

 

Herberto Helder

#14

CSC_0487.jpgpartir de novo seria tudo esquecer

mesmo a ave que de manhã vem dar asas à boca recente do sonho

mas decidi ficar aqui a olhar sem paixão o lixo dos espelhos

onde a vida e os barcos se cobrem de lodo

 

Al Berto

#11

DSC_6870.jpg

 Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te

 no sossego feliz das folhas e das sombras.

Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.

 

António Ramos Rosa

#7

DSC_6822.jpgUma noite apenas -

escrevemos sobre a mão uma casa decisiva.

Depois os dedos são uma floresta restituída à árvore.

 

Jorge Fallorca

#5

DSC_8249.jpg(já não chego à claridade, nem sequer para a não ver: o mundo está todo partido.

Ando por paisagens cheias de zonas de incerteza)

 

Rui Nunes

#3

DSC_3235.jpg

 Deve ser o mendigo à minha porta
  e a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
  e a árvore que me planta.

 

Daniel Faria

#2

DSC_3718.jpgA manhã que vem depois dessa melodia

é a mesma que nos faz esquecer

os húmidos murmúrios das estações.

 

Catarina Nunes de Almeida

Mais sobre mim

imagem de perfil

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub