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o mundo quieto

o mundo quieto

Apontamentos #20

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Em 2017, fotografei a Casa das Histórias - Paula Rego e acabei por, nos dias seguintes, dedicar-me à elaboração de uma colagem. É muito fácil gostar-se da obra de Paula Rego, da história da sua vida e da sua vida enquanto Mulher. É muito fácil também sentirmo-nos inspirados de cada vez que olhamos as suas obras. É essa a melhor certeza de que estamos perante o Belo. 

#14

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Um dia conseguirei fazer o inverso. Construir o esquema silábico 5-7-5 na língua mãe dos haikus. Por agora, já fico deslumbrado pelo rigor necessário em condensar, pela busca do minimalismo pensado e, consequentemente, escrito. O início seria Eis o teu poema, que me levaria já fora das 5 sílabas. Mas haverá assim tanta necessidade de impôr o "eis"? Esse 'aqui está' estará no gesto silencioso das mãos, a abrirem-se para a luz da manhã, e nesse lento movimento, poder apenas dizer 'o teu poema'. Claro que bonito seria o inverso. Lá chegarei. A combinação de hiragana e tiragana não será o mais difícil. Mas reparem como na última combinação silábica do primeiro verso, se salta para um kanji demoníaco apenas para dizer 'uta': poema. Uta. É tanta a história que me escapa (ainda que já saiba alguma coisa), que me sinto a profanar algo sagrado. Quando estudo demasiado, principalmente agora em época de exames, gosto de ver animé para descontrair. Depois das obras-primas de Miyazaki, ando a ver a série Blue Period, título a remeter para Picasso, sobre um jovem que deseja seguir o seu sonho em tornar-se artista. Dou um salto cada vez que ouço uma palavra que já conheço, e sorrio. Também sou como o jovem Yatora, sempre que entende que deu um passo em frente ao seu objectivo final; no acertar de pincel, na escolha de perspectiva, na composição, na dimensão. É uma beleza imensa poder aprender a vida inteira. Os jovens sofrem muito com todas as decisões que têm de tomar. Já passámos por elas. O meu filho também está pouco convicto com as disciplinas a escolher na passagem para o décimo ano. Não vale a pena. Tento mostrar-lhe que estudar faz parte do processo de uma vida inteira; que nunca estaremos completos e que estará algo errado se pensarmos o contrário e entender as coisas como plataformas estanques ou inamovíveis. O bom de aprender é ter a liberdade de errar. Enquanto houver erro é porque existe tentativa. Não tem mal errar no curso, na área. Haverá tempo para simplesmente mudar. O mundo está complexo e, a maior parte das vezes, incompreensível. Sofro por trabalhar numa área que me obriga a pactuar com o desenvolvimento galopante e desenfreado da tecnologia. Mas escolhi a licenciatura de Ciências Sociais, com minor em Sociologia para melhor entender este espaço em que habitamos. De onde viemos, como nos organizámos, onde errámos, para onde vamos, o que somos, o que sou, quem és tu, e quem és tu quando estás comigo. Não admira que a Sociologia seja um ramo da Filosofia. Isto para dizer que quando escolhemos um objectivo não podemos cair em tentação de ver o quadro completo como o jovem Yatori, ou como eu, em querer dizer mais do que o necessário num verso. Se cairmos nessa tentação, encontramos o conflito interno, e isso irá tirar o prazer de aprender as coisas simples. Mais tarde se verá. Ou talvez quando finalmente conseguirmos ver o quadro inteiro, nos apeteça outra coisa. E estará tudo bem. 

Apontamentos #19

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Josh Hild

Desaprende-se a chegada da noite. Segue o passo entre o frio, esquiva-se a mão no bolso próximo, ajeita-se o duplo queixo na gola levantada do casaco. Um homem habita a sua vida como um visitante fugaz. Inábil à mínima contrariedade. Onde ficaram os cavalos fumegantes, as tintas escarlates pingando das telas já usadas, o filtro de meio bilhete de metro para enrolar o tabaco barato? Algures numa noite sai-se à rua e o frio é um castigo, quando outrora quase se cheirava a cão pingados de chuva. Que visitante distante te tornaste da tua vida? Esquece-la numa gaveta, mapa dobrado entre um bloco de notas manchado de pingas de café. O cruzar de perna deixou de ser uma onda a clamar nomes, as mãos finas e articuladas agora em remendos inutilizados, ferramentas cuja ferrugem lhes envergonha a utilidade. O homem descobre a vida de poema em poema. Uma frase arrebata-o e leva-a consigo durante o dia. Há que abrir o mapa do bloco de notas e descobrir em que vida, em que país, em que corpo. A sinalética dita uma tortuosidade sem retorno. Talvez seja necessário abrir esses cadernos antigos, e como um escrupuloso espião traçar as linhas possíveis de uma vida. Chegar a um momento e com solenidade deixar cair o indicador e dizer: «Aqui!» Que começos possíveis se nesses momentos já se chegava atrasado ao início das coisas belas? Porque sem hora acontecem como poemas, como pingas de chuva, como luzes incendiárias, como fumos adocicados. Sim, aqui. E agora? Sou farol ou embarcação movediça?

Apontamentos #18

Bastou de manhã cedo abrir a janela a nascente e ficar imóvel alguns segundos. A espessura das pálpebras não é suficiente para filtrar a luz do sol, e mesmo de olhos fechados ficamos com uma tela de areia para contemplar. Fechamo-nos à realidade porque não podemos olhar a realidade e o sol ao mesmo tempo com vista desarmada e fica um pequeno novo mundo para contemplar, onde cabem memórias, sonhos, personagens, a intensidade mais forte dos odores, as músicas que marcam. Este é um texto sobre as músicas de Verão. Músicas que foram ouvidas de olhos fechados, cegos pela extrema luz e calor. Músicas que fizeram tanto sentido nesse registo veranil, que sempre que as ouço noutras ocasiões, torna-se impossível não as associar à praia, à areia, aos jardins, às piscinas. São também músicas a cheirar a pinheiros, à resina pegajosa, às agulhas dos ramos que teimam infiltrar-se nos dedos dos pés descalços. Músicas que se ouviram nas ruas intrincadas à beira-mar, a conduzir em asfaltos que levantam ondas tremeluzentes e visões onduladas. Músicas de nos demorarmos mais um pouco quando as pessoas começam a regressar a casa; principalmente nesses momentos. A maior parte delas ouço-as há mais de vinte anos, sempre com uma renovada sensação de novidade. Recordo algumas delas.

- Sinead O'Connor - Just Like U Said It Would B
- James - Don't Wait That Long
- The Divine Comedy - The Summerhouse
- Madonna - Nothing Really Matters
- The Smiths - How Soon is Now
- Deus - Bad Timing
- Michael Nyman - An Eye For Optical Theory - versão 1982
- The Divine Comedy - A Lady of a Certain Age
- Pixies - Ana
- Madredeus - O Mar
- Dave Matthews band - Rapunzel
- Franck Black - Places Named After Numbers
- Penguin Cafe Orquestra - Scherzo and Trio
- Gwendal - Le Reggae gai de Gueret
- Ben Leinbach - Horizon of Gold
- Mão Morta - É um Jogo
- The Cure - Kyoto Song
- Jean-Michel Jarre - Ethnicolor
- Depeche Mode - Walking in My Shoes
- Robert Miles - In My Dreams
- Touch and Go - Straight to... Number One...
- Metronomy - Some Written
- California Concert - Freddie Hubbard - Red Clay
- Vibrasphere - Orange
- Nova Nova- Tones - 1

#13

Abriria-se o peito; a mão transpôs o vidro
como se procurasse um coração cansado,
mas de sangue bombeado
foi apenas dos trilhos que os golpes
abertos cuspiram.

Calara-se finalmente o piano.

O mecanismo era agora uma carta nunca escrita.

O Segundo Movimento #3

Como descrever os primeiros dias, senão de normal acanhamento, uma vontade expressa de não invadir o espaço contrário, ainda que se estudassem em permanência os ritmos e hábitos de cada um. Foram vários os dias em que os encontros se resumiram à refeição ou a um raro e ocasional cruzar pela grande escada bifurcada, quando em horários quase sempre desencontrados um descia e outro subia. Era a ideia que ficava, a de estarem sempre em direções opostas. Artur fingia concentrar-se às primeiras horas do dia, rascunhava algumas ideias como quem pica o ponto, repetia frases que conhecia de cor apenas para ver crescer a mancha de tinta na alvura das folhas e sentir-se a produzir algo, ainda que apenas fossem cópias mentais, um disco cuja audição se repete, que não entusiasma mas que também não aborrece, uma absorta condição de passar pelo tempo, e por vários momentos se exasperava; se os dois meses fossem apenas um fogacho do incêndio que idealizara, o que fazia ele ali? Mas as manhãs avançavam e quanto mais perto da hora do almoço maiores as probabilidades de encontrar Vera. Acordava tarde, já o sabia, tal como previra. Dava por si a fazer uns passeios em volta do solar por essa hora. Ao rodar para os jardins traseiros, fingia contemplar os ornamentos do zimbório, fixando o olhar na sua janela. A posição das cortinas revelava se já havia acordado. Os passeios tornaram-se cada vez mais longos e lentos. Adentrava os caminhos intricados entre os frondosos castanheiros, e pelas abertas dos salgueiros esperava qualquer sinal da sua janela festonada. Fazia cálculos tão pobres e desesperados que se resumiam a um «se já acordou há quarenta minutos, por que razão não sai ela? Não abre sequer uma janela? Estará a escrever?», e rodava ao final da propriedade, junto a umas toscas construções que haviam servido em tempo de cavalariças, para regressar novamente. Nestes passeios cruzava-se demasiadas vezes com o anfitrião da casa, e tentava sempre sorrir-lhe veemente, querendo ocultar do seu rosto qualquer laivo de criança atiçada pelo presente que ainda não pode abrir.

(excerto do livro de Vera L.)
Estamos na sala do piano. Um sexto andar próximo da Avenida da República. Cheira a urina de gata que por vezes surge a indagar quem de novo entrou. Sentamo-nos junto à janela. Lá fora já a tarde é escura. Não chove. Não há vento. Não chegam os sons da cidade ao último piso do prédio antigo, cuja entrada ainda conserva as paredes forradas a alcatifa dos anos sessenta e grandes castiçais empoeirados a comprovar o peso do tempo. Vamos chegando, apreensivos. Eu tento lidar com a pronunciada coincidência de existir um piano de cauda numa sala de psicoterapia. Tento lidar com o vocabulário desgarrado de uma psiquiatra que estudou piano, dedicada mais por teimosia do que por paixão, a desencaminhar os netos a estudar Hanon, Bach, Czerny; confidenciou-me um dia, já que os filhos nunca se interessaram pelo instrumento. Mas dizia que vamos chegando, e sentados num círculo junto à janela nos apresentamos e vamos segredando as maleitas que nos conduziram àquela sala. A estranheza que se repete em filmes é uma fábula de crianças face à realidade bruta que se respira neste tipo de encontros. «Aqui é a doer!», penso, enquanto meço palavras na minha apresentação. A doutora sabe que me aconchego para não alentar um pedantismo que me caracteriza, e logo afirma em voz alta a todos os outros que escrevo e toco piano, que não é crime, muito pelo contrário, que se o faço o deva admitir, que isso me torna maior, e que não esmoreça nesta falta de estima própria. Eu anuo, que sim, que tem razão, que até pode ser esta fome de querer fazer coisas que me consome por dentro e me desordene e me leve à lama de uma chuva que não me pertence. Entendo que este temporal me persegue há muitos anos. Mas antes tinha no álcool uma justificação, na conduta adolescente ainda havia espaço para clivar uma verdade a pedir explicações. Hoje o que me resta? Uma relação ocasional com o meu editor adúltero, dois livros resgatados ao sofrimento e longos dias prostrada, tirando as treze horas a dormir todas as noites. Os outros também falam de si. O jovem que fingiu frequentar três anos a universidade. Saía de casa primeiro de que os pais e voltava a entrar mais tarde para passar o dia a jogar consola. Três anos nisto. A assessora do ministro sem coragem para dizer ao mundo quão assediada e maltratada era. Nem mesmo ao seu marido, grande amigo do primeiro. O inspector da PJ obrigado a cumprir vários meses de terapia por quase ter levado à morte um suspeito com as suas próprias mãos, num longo e extenuante interrogatório. Descubro-me microscópica perante a gravidade alheia. «Isto não é para meninas», repito-me a pensar quando ouço alguém dizer que por duas vezes tentou o suicídio, dito com a ligeireza de quem descreveu por diversas vezes essas chamadas de atenção. Miro-lhe os pulsos. O corpo magro que outrora enchia as roupas que traz folgadas. Comprimidos. Para dar tempo. Uma chamada de última hora a alguém próximo e hospital com ela, para se limpar, e voltar a sair para repetir a encenação. É cruel esta vida. Chegarei até aqui, perguntei-me, enquanto lhe desisto dos olhos e do queixo tremente a puxar o choro. Não pactues. Não partilhes. O piano que me assombra. Porquê logo aqui um piano? E se ainda me tornar como ela, de pulsos imaculados, mas de estômago habituado a um festim químico? Apenas para agitar águas, uma pedra na vertical a mergulhar, pequenas ondas circulares atingindo primeiro os mais próximos até aos mais distantes. Outros dizem-se bem. Que a vida mudou para melhor. A doutora acende outro cigarro e afirma que as depressões são necessárias, que nos instigam a mudar, a ganhar coragem para enfrentar o que não está certo. Passamos a ser intervenientes daqueles passatempos mistério, a procurar em várias salas de um hotel o criminoso de uma velha rica. Nunca é quem se espera e por isso há que mexer na merda. Na merda que nos habita e se multiplica quando apenas tentamos encontrar saídas para o lixo que nos tolhe, e nos proíbe o discernimento de entender o que nos trouxe até aqui. Quando saímos, partilhamos o exíguo elevador. Seis andares em direção à terra feitos num silêncio que raspa vísceras. Separamo-nos à saída do prédio, tão acabrunhados quanto chegáramos e iludidos seguimos pelos passeios escuros, a pensar quem será o criminoso de uma história inventada seis pisos acima. E esmorecemos. Não temos respostas, menos ainda pistas para seguir. Quanto tempo nos irá custar esta charada? Seremos ágeis o suficiente para o malabarismo da ficção e realidade? Entro no metro. O odor a óleo quente característico dos carris afasta-me da acidez da urina de gato, do piano na ampla sala onde nos sentáramos a vasculhar no esterco. Esta transmutação requer destreza, movimentos agilizados característicos da fuga. Nisso somos bons. A adiar. E para amanhã deixamos o mistério, se por hoje sentimos que de mistério é a realidade em que vivemos.

Num dos jantares Vera estava particularmente alterada. Ouvia com dedicada atenção as formas reflexivas com que Artur se munia para criar os famosos labirintos nos seus livros, onde os vários caminhos abertos acabavam sempre por chegar a um ponto de confluência final. Escutava-o com um olhar trémulo, uma comoção latente que lhe fazia brilhar o negro dos olhos. Bebia vinho – era o primeiro jantar em que a via beber álcool – com uma velocidade improvável, mas em momento algum denunciou qualquer vacilação na sua postura atenta. Acabara por confessar-lhe que pouco havia escrito em todos aqueles dias já passados, uma página se tanto. Artur assentiu em concordância. Vera acrescentou que o mais difícil era aceitar que as histórias e a vontade de escrever existiam, mas que se resumiam aos acontecimentos da sua vida. Havia tentado a ficção no segundo romance, resultado que lhe fora totalmente exterior e impessoal. Entristecia-se ao entender que o rastilho da sua escrita encontrava-se sempre e apenas no que vivera, e que isso acabava por ser doloroso, pois se acordava todos os dias com vontade de mudar de vida, regredia sempre que escrevia. Uma contradição difícil de aceitar. E pousou finalmente a cabeça de lado sobre o seu punho fechado, num gesto de abandono físico, e uma aproximação a Artur que lhe parecera genuína e, dir-se-ia mesmo, cúmplice e bela.

Decidiram sair para um passeio nocturno. Artur aprontava-se para rodear o solar, ouvir o salpicar da água no repuxo das figuras míticas, o vento nas folhas das árvores a caminho das cavalariças, mas Vera retirara já do bolso a chave do seu automóvel abrindo-o à distância. Vendo a indecisão de Artur e sem estancar o passo sentenciou: «Por favor, passamos os dias aqui fechados. Vamos lá baixo ver o mar.» O porteiro abriu-lhes a cancela com um ar de surpresa, acenando-lhes por fim. O moderno Cooper revelava a sofisticação que completava a aura de Vera, mas ao levantar o volume da música, já após alguns metros em silêncio, o quadro baralhava-se novamente ao ouvir-se um concerto de piano de Rachmaninoff. As curvas eram acentuadas, desciam a serra em direção às faldas oceânicas, e parecia uma viagem sem um destino concreto, imersos no escuro que se interrompia apenas à sua passagem com os máximos ligados. Tudo era estático e fílmico, uma grande sequência de único plano a uma velocidade reduzida. «Fui pianista grande parte da minha vida, Artur.» O escritor virou o tronco na sua direção: «É a Vera a tocar?». Respondeu-lhe que não, que poucas pessoas podiam tocar assim Rachmaninoff, muito menos ela agora, depois do que acontecera. Artur concentrou-se no piano e queria muito perguntar-lhe o que era aquele ‘depois do que acontecera’, mas sem ousar, voltou a pousar o olhar na estrada. «Não é grande mistério. Há pessoas que ainda que toquem perfeitamente, não conseguem aguentar a exposição dos concertos. Sou uma delas. Embriagada a coisa corria, mas a responsabilidade aumentou demasiado. Comecei a falhar por várias vezes mas sempre pensei que se devia a falta de preparação ou estudo. À medida que forçava mais um concerto, forçava mais de mim e ainda mais do álcool. O esgotamento nervoso por se fazer aquilo que não se consegue tolheu-me como um comboio que nem tempo tem de abrandar antes de trucidar alguém parado na linha. Desde esse concerto que nunca mais toquei ao vivo, sendo que os últimos compassos foram tocados num sofrimento atroz, o vómito a subir-me à boca, um suor vertiginoso a toldar-me o equilíbrio. Ouvia ainda as palmas quando já estava na casa de banho a virar-me do avesso. Nos quatros dias seguintes não consegui dormir um minuto que fosse e soube finalmente que não estava bem.» A tonalidade passava a menor, o oboé confirmava a desolação, o piano agora em oitavas reforçava uma intenção de sofrimento, as cordas levantavam voo para logo se silenciarem.

Ao chegarem à linha da costa, deixaram-se ficar dentro do carro. As ondas batiam forte no quebra-mar e salpicavam o para-brisas como se chovesse. Ouviu-se em seguida outra obra, agora de Ravel. O segundo movimento do concerto de piano em Sol Maior. Artur identificou-o perfeitamente, suspirando a revelar que o conhecia bem. Vera sorriu: «Criei esta pasta de músicas só com os segundos movimentos de concertos de piano. Adágios e mais adágios. Principalmente neste de Ravel, há quase uma bipolaridade pela dissonância com os outros movimentos. No segundo movimento o compositor baixa a guarda, diz o que verdadeiramente interessa, concentra toda a sua energia e génio em dizer com a menor quantidade de notas o tanto que pretende. Tudo é medido com uma doçura plácida, um estado meditativo que parece perdurar nos tempos, um despudor em ser eloquente, triste e belo. É nesse estágio de quietude intemporal que tento viver agora.»

Artur fixava o seu rosto virado para o escuro do mar. Ouvi-la a falar pausadamente sobre a música que escutavam era um acontecimento tão inaudito que o arrebatava. Circundado pelo fogo de um desejo impossível, não sabia o que fazer com as mãos, estavam a mais no seu corpo todo ele ouvido e coração. Sentia a pulsação do sangue num frémito, gritava a uma só voz inaudível, amordaçado na sua idade. Tecendo um respeito religioso pelo sofrimento alheio era uma solução apenas temporária. Ousou cheirar-lhe o cabelo encaracoladíssimo mais de perto, fascinado e atraído, talvez até atraiçoado, pelo seu perfume; esse tesouro inacessível escondido nas vielas mais intrincadas e exíguas, mas que lhe chegava como uma chicotada de terror delicioso e insuportavelmente irresistível.

Vera sentiu-o aproximar-se de si. Olhou-o de modo complacente, e em silêncio, abanou a cabeça lentamente a dizer-lhe que não. O piano em trinado de notas terminou o segundo movimento do concerto de Ravel.

 

O Segundo Movimento #2

Foi um encontro informal. Para além do jovem editor encontravam-se presentes alguns fotógrafos locais, o presidente da câmara, o atual diretor da casa e a outra escritora convidada. Não parecia ser nenhum rasgo publicitário pelo grupo editorial. Havia, sim, uma atmosfera de propaganda concertada, uma convergência de interesses de várias partes, onde os escritores, uma vez mais, serviam de macacos amestrados a exibir as suas habilidades exóticas.
Não conseguiu evitar um olhar mais demorado ao cumprimentar Vera S. Parecera-lhe ser mais baixa e magra do que aparentava nas fotos dos livros. Talvez pelo grande rosto e volume do cabelo encaracoladíssimo que se armava em volta da sua cabeça. O nariz não era bonito; o osso central largo como o de um pugilista. De resto tudo lhe era magnético. O negro dos olhos, as pestanas e grossas sobrancelhas que não precisavam do contraste da maquilhagem, e os lábios, muito largos e proeminentes, ainda que brilhantes por um batom de cor quase neutra, eram rubros o suficiente, como se tivessem acabado de ser mordidos com alguma força e recuperassem rapidamente o sangue. Vera S. era por fim uma mulher no corpo de uma adolescente, quase frágil. Vestia uma túnica preta e calçava umas botas de inspiração militar, que lhe conferia um classicismo urbano, uma excentricidade face à ocasião: estava e queria marcar uma ligação entre a sua pessoa e o que escrevia. E como seria ele aos seus olhos, pensava enquanto pousava desarticulado para uma foto de grupo. Os dois lado a lado, ao centro e em destaque.

A foto foi tirada à porta do solar, construção iniciada pelos princípios do século XIX e que deste então tem crescido até à forma atual; alcandorado na falésia atlântica, cuja paisagem se estende por ladeiras até ravinas recortadas, semeada de bosques e rochas cobertas de musgo, onde resistem aos ventos do mar velhos castanheiros em decomposição. Defronte ao portão principal, abre-se uma cascata em forma de leque, com nereidas sensuais envolvidas pelos longos cabelos de um gigante Tritão; as figuras incandescem com o sol a bater na alvura recuperada do mármore. O silêncio em volta confere aos repuxos uma melopeia plácida, típica dos jardins orientais. Sobe-se então pela escadaria central, que conduz a um varandim alpendrado, de largas ogivas. Daí é possível ver para além dos muros da propriedade o azul diáfano do oceano. Poltronas de verga convidam a finais de tarde aromatizados por chás de jasmim. A larga porta conduz diretamente ao salão principal, com ligações às cozinhas, salão de jogos, biblioteca e a largas janelas com pequenos varandins para os jardins traseiros. Onde nos anos 50 se mantinha um ringue de patinagem que também servia de corte de ténis, surgia agora uma piscina ladeada por deque escuro, construção moderníssima e dissonante de tudo o resto. Uma escada alcatifada bifurca-se para acesso ao piso superior, levando a um corredor comum, por onde se dividem para ambos os lados, os vários quartos.

Foi com espanto que ouviram do seu anfitrião que eram os primeiros hóspedes do solar, desde a sua reabilitação, e que, estando em época baixa, seriam também os únicos durante os dois meses de residência artística. Esperava-se com isso um aguçar de curiosidade pelas gentes de gosto requintado, para nesse mesmo verão, abrirem portas a plenos pulmões. Era a assunção da razão de ali estarem; engodo refinado. O solar teria sempre alguém na cozinha para os servir, e de noite, um vigilante ocuparia o posto de entrada. De resto, ele mesmo estaria ao dispor de ambos. «Reparei que trouxeram os vossos carros, mas sintam-se à vontade em pedir transporte para onde desejarem. A câmara assume viatura e condutor para qualquer deslocação ou visita guiada. Os vossos quartos serão os maiores do solar, as últimas portas ao fundo do corredor; cada um do seu lado. Devido à simetria da construção, nenhum ficará a perder para a melhor vista. Sintam-se em casa. Sei que vêm para trabalhar, mas, sinceramente, usufruam o máximo que puderem.» Uma mulher bisonha e imponente assomou a uma porta ao fundo, dando para a cozinha. O anfitrião, antes de desaparecer, pediu-lhes que deixassem as suas malas ali mesmo; seriam levadas assim que escolhessem os quartos de cada um.

«Esquerda ou direita?», pergunta Vera no patamar central da escada onde iniciava a bifurcação para o corredor dos quartos. «Certamente que não serei eu impor a minha vontade a uma senhora», respondeu-lhe Artur, investindo um ar de gentleman zombeteiro. A escritora abanou efusivamente a cabeça em negação fazendo balouçar o frondoso cabelo encaracolado. «Tudo errado. Vamos fazer isto como deve ser. Afinal, passaremos aqui dois meses. Vamos ver os dois quartos. Serão eles a escolher-nos». A desenvoltura com que tratava Artur deixara-o inesperadamente confortável. A escolha acabara por ser fácil, porque efetivamente, em nada se diferenciavam um do outro, mas aquele périplo à intimidade espacial que os aguardava gerava a ambos um tácito entusiasmo. Artur P. confessara que escrevia à mão, diretamente em papel, e sempre de manhã, pelo que um quarto virado a nascente lhe seria favorável. Vera acedera prontamente, pois adorava as sépias antigas e douradas dos poentes sobre os lençóis. Quanto às horas de escrita, não as tinha, e tanto podiam acontecer com o portátil na cama ao deitar como na espreguiçadeira da piscina ao sol do meio-dia.

(excerto do livro de Artur P.)

acho que me repito, mas só sopesando o quanto há ainda por descobrir, nasce esta vontade de escrever como se alguém me escutasse, e não havendo horas, eu pudesse a meu bel-prazer desvendar-me perante o desconhecido, não um eco da própria voz, prefiro imaginar um corpo com rosto, quase imóvel, a escutar-me com paixão (compaixão?)

sei que as palavras se amontoam, os discursos se sobrepõem, os diálogos empatam a fluidez da leitura, tudo quase a resumir-se a um grande ódio pela ordem, pelas coisas com nexo, a fazer sentido aos mais desatentos, não escrevo para os desatentos

- Não é para ti que escrevo

antes para mim próprio, para mim mesmo, nunca me decido qual a forma correta, e enquanto houver indecisões, este caos será uma casa onde ocasionalmente uma janela a mostrar-me

- Agora é aqui que vives

e eu aceito, como não aceitar, se já deambulei como quem procura perder-se de propósito, não gosto desse escuro que me traz a solidão, não sei o que fazer com o mundo, e com toda a certeza o mundo pouco saberá o que fazer comigo, porque afinal tanta gente, uns isto, outros aquilo

a sobrevivência é um depósito de promessas, quando alguma se concretiza, pulamos em frente, renovada lufada de ar, todo o corpo entusiasmado a gritar é por aqui, é por aqui, quando afinal tudo desarrumado cá dentro, as velhinhas peças que não encaixam

- Como encaixá-las se não pertencem umas às outras?

toda a probabilidade de erro ser sempre maior que a restante, uma balança viciada, acho que me repito neste ódio pelas coisas sem nexo, tanta gente e este escuro que só traz solidão, há vozes dentro de mim quando deveriam haver frases audíveis, pessoas de carne e osso a ouvirem-me, mas tanto erro no humano, se até os deuses

- Errámos todos. Apaga-se tudo e começa-se do início

é tarde agora, por isso os mantras, por isso a respiração, o faro a apurar-se para se evitar apuros, e quando digo apuros são anos inteiros a viver o que não se quer, quando apenas uma única vida com deuses a errarem na nossa crença

- Começa-se do início

um dia não haverá retorno, o fio de lucidez a esvanecer-se num suspiro e tantas moradas que já nenhuma para chamar de casa

Apontamentos #17

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O Náufrago de Thomas Bernhard tem como personagens o narrador, o pianista Glenn Gould e Wherteimer, a quem o título do livro serve de epíteto. Não é explícito ao longo do monólogo misantropo, se este Wherteimer se trata do psicólogo e filósofo checo Max Wherteimer. Aliás, pelas datas de nascimento e morte, dificilmente seria possível uma ligação entre Bernhard e este. Acresce que o livro também é sobre Glenn Gould, que o autor nunca conheceu. Por isso, há liberdade para fantasiar a união entre três homens distintos que existiram na realidade em diversas temporalidades e que nunca conviveram entre si da forma próxima como é relatada na obra. Dir-me-á o leitor atento para qualquer falha nesta suposição, desde que, obviamente, corroborada com factos credíveis. Até lá, será desta forma que habitarão no meu imaginário.

A uni-los na realidade existe o estudo pela música, onde excluindo o pianista Glenn Gould, terá sido apenas um acontecimento diletante, mas crucial para o entendimento do mundo e respetivas obras. Falo da multiplicidade de vozes, diversos matizes estéticos, de variações (como as de Goldberg de Bach) mais do que rítmicas, de desconstrução. E que belas são sempre as fintas ao cânone, a destruição do estabelecido, do cómodo; quase até, do comezinho. Porque é desde esse momento, arrasados os castelos imaginários erguidos por viciosas modas e tendências, que nasce a aventura de construir algo inédito.

Refiro-me às interpretações de Gould, não tocando qualquer nota que não seja sibilada pela sua voz; às maquinações de Bernhard na estrutura dos seus romances, como uma máquina que emperrando em determinado ciclo, timbra o texto de repetições; ao fenómeno Phi na psicologia de Wherteimer, que na repetição alternada de duas imagens distintas, nos oferece a ilusão de movimento. Há finalmente a visão do todo, da unidade gestaltiana, da proximidade e segregação necessárias para rematar a obra num hermético jogo de vozes caleidoscópicas.

O Segundo Movimento #1

Por momentos, julgara-se equivocado. O sol poente entrava pelas janelas rasgadas e conferia ao espaço uma ­imagem efabulada; todos os objectos pairando acima do chão, assim como os seus pés, que na relutância de quem duvida, caminharam como se levitasse num tapete de luz. Pensou que seria esta a forma mais digna de envelhecer; a de ganhar a possibilidade de fantasiar em qualquer ocasião, ou apenas esquecer-se dos espaços que já percorrera, e assim, qual menino, extasiar-se ingenuamente com imagens que revia como se fosse a primeira vez. Nunca a senilidade. Esse desgoverno guardava-se a quem não ocupando a mente, receberia o devido castigo como uma sentença irrevogável. Ele não chegaria a essa fase de espírito, parca condição existencial, pois se passara a vida inteira a derramar a sua vida em romances e ainda os escrevia, estaria a salvo desse afunilar de ideias e juízo.

Apresentava-se ao seu novo editor, um jovem afetado, e tanta coisa mudara desde o falecimento do seu antecessor, que até as horas vespertinas da reunião lhe soavam a pedantismo e a uma postura despicienda pelo ofício. Concluíra agora que nunca havia entrado naquela sala de tarde. Fora isso que o baralhara à chegada. Os livros discutiam-se e trabalhavam-se como a terra, e à moda antiga, bem cedo e antes que a cinza dos dias mundanos turvassem as ideias. Na pior das vezes, as reuniões terminavam com um almoço demorado, onde já não se regressava ao escritório. Aí sim, havia tempo para mais um uísque e dois dedos de conversa sobre este ou aquele lançamento, apenas para desanuviar. Todos os minutos tinham um peso incomensurável e por diversas vezes implicaram com os atrasos do designer, ainda que chegasse com o sorriso de quem vingara no trânsito caótico montado na sua assustadora e potente moto. Mas trazia-lhes sempre ideias capazes de lhes amainar os nervos; capas sóbrias e de suaves matizes, onde bastava timbrar em relevo o nome do autor, o seu nome, para se garantir uma anunciada e certificada qualidades literárias.

O ciclo chegara ao fim numa doença conhecida. Havia tempo, mas não muito tempo. O seu editor garantira a venda da chancela que há muito era namorada por um grande grupo editorial, visto consagrar no seu catálogo escritores europeus de sistematizada importância, premiados e ganhados a pulso, embora quase sempre subvalorizados como qualquer filósofo ou sociólogo respeitáveis. Eram as leis de uma esfera selvática, onde nos últimos anos vender livros era tudo menos vender histórias, ideias e pensamentos. Era um objecto passível de comércio, com custo, margem e lucro. A nível nacional, era aqui que ele se encontrava. Nos que vendiam poucos exemplares, ainda que com um público de leitores fiel e incansável pelo seu mundo imaginário. Permitiam-lhe viver e ter alguma dignidade nesse meio que cada vez mais se parecia a um horto descuidado, onde nasciam escritores como ervas daninhas em redor das roseiras de sempre.

Mas esta mudança de paradigma, onde abutres visionários pela derradeira história do século, que os levaria a vender um livro como algo irrepetível, afinal um objecto cansado e sem fôlego para perdurar no altar dos notáveis, passava-lhe longinquamente. Ele estava imune a essa sangria literária, demarcava-se cada vez mais das chamadas tendências históricas, e tecia em modo provocatório, de livro para livro, uma intrincada e exigente polifonia de vozes, sabendo desse modo estar a filtrar o ouro do seixo, o leitor incauto e preguiçoso do que homenageia a literatura como uma iguaria intelectual.

Enquanto apertava a pequena e fina mão do seu novo editor, era com todo este semblante que o fazia, assegurando pela raiz dos acontecimentos uma condição de elevação, colocando-se num território inalcançável, a que muito poucos têm acesso, ainda que lhe sorrisse com a maior educação e afabilidade. Seria, portanto, expectável alguma mesura no trato deste autor imaculado, que logo acabou por se sentir indevidamente reconhecido, formulando-se até na sua cabeça a pertinente questão de quantos livros seus havia aquele jovem lido.

O diálogo avançava entrecortado, galgos a medirem forças, desenhos de limites nas fronteiras de cada um, gestos moderados, anuíres inconvictos, receosas palavras. Mas apenas ao início. O editor garantia por fim a certeza de que a loja seria a mesma ainda que patrão diferente; poderia continuar (como se atrevia?) a escrever as suas polifonias de vozes, os seus labirintos poéticos, alguns desvarios numa estética um tanto difícil para o que estava em voga; enfim, nomeava-o arcaico e decrépito num mundo voraz prestes a engoli-lo. O escritor, chamemos-lhe apenas Artur, fitava-o como uma peça concebida para receber uma morte lenta e agonizante, tamanha a perfídia com que se lhe dirigia. Passaria a ser homem de ódios, ele que nunca se detivera em tais despeitos. Agora apertava as mãos como se se tratasse de um assassino a soldo, sem ponta de remorso, isento de escrúpulos. Toldava-se-lhe a consciência.    

Claro que estava livre para mudar de editora, ainda que essa decisão fosse contrária a de todos os outros, pois estar num grupo editorial maior significava mais poder de infiltração no mercado e logo mais vendas. Não veria, afirmava presumido o novo editor, que tal ideia fosse sequer um assunto a discutir, ainda que estivesse obrigado, por mera formalidade, a informar-lhe dessa liberdade. Aliás, acrescentava, era tempo de mostrar ao tempo que era perfeitamente possível aglomerar numa única editora escritores comerciais dos, chamados, mais eruditos. E aqui chegava a sua proposta, como uma celebração e simultaneamente uma mensagem de unidade para todo o público em geral: juntar numa residência literária essas duas linhas de pensamento. Cruzar ou talvez colocar num ponto de partida igualitário essas distintas gerações, de idades e formas de pensar. Seria um resultado interessantíssimo para o público de todos ver e esperar com enorme expectativa os resultados finais.

Tinha-as escrito diversas vezes nos seus romances, situações improváveis que só com grande vontade de entrar na história se tornariam aceitáveis aos olhos do leitor. A velha máxima do ilusionismo: Concentra-te na magia. Porque quando tudo se desencaixa dos trilhos normalizados e se pisa terreno desconhecido, os nossos sentidos alertam-se, apuram-se a visão e a audição, e muito antes de se conseguir articular uma pergunta, proferir uma palavra que seja, existe tolhimento, paralisia, torpor. Era nesse estado que se mantinha sentado diante do seu novo editor, ouvindo-lhe agora o discurso desenvolto sobre a já aprovada residência artística, com data e local marcados, e com as máquinas da comunicação prontas a lançar a notícia para o mundo inteiro. O primeiro nome estava confirmado, faltava apenas a confirmação do seu. A segunda geração estava pronta e esperava ansiosamente pela primeira, a sua geração.

Não se desarmou ao ter como resposta o nome de uma mulher totalmente desconhecida, quando lhe perguntou, afinal, que escritor era esse da nova geração. «Uma jovem senhora», precisara o editor com o indicador estendido para o tecto, como se assim não houvessem mais dúvidas sobre quem se tratava. Não querendo dar conta da sua ignorância sobre o novo panorama de escritores do seu próprio país (como poderia ser de outro modo, se eram cada vez mais?), esboçou apenas um esgar, reacção que julgava a mais esperada pelo jovem arrivista, que logo tratou de lhe elucidar que a escritora em causa preparava o seu terceiro romance, com bolsa de criação atribuída, atestando um futuro fulgurante. O nosso escritor mostrou as palmas das mãos, encenando um sinal de rendição absoluta. Levantou-se, pediu-lhe um par de dias de reflexão e despediu-se dizendo-lhe que dificilmente a proposta seria aceite. Que cidade europeia, perguntou-lhe num súbito repente, como se induzido por um choque elétrico. «Ora, ora, caríssimo Artur, para que precisamos nós da Europa com o bonito país que temos; nada disso, será cá numa aldeia, alojados no meio da natureza, numa daquelas recuperações de fachada antiga de um velho solar» - respondeu o editor, pousando-lhe nas mãos, num gesto vagaroso, quase solene, um sobrescrito com todas as informações necessárias.

Voltou a sentir-se encadeado pelo sol poente cada vez mais queimado, o seu corpo de sessenta e dois anos parecia definhar de força naquela sala que se tornava finalmente irrespirável. Pisava brasas e quanto menos demorados fossem os seus passos em direcção à saída melhor. Mas o que verdadeiramente o incomodava era sentir já dentro de si a forte suspeita de aceitar o desafio. Prometeu-lhe sem grande convicção uma breve resposta e saiu em busca da primeira livraria que encontrasse.

Os dois livros ocupavam um lugar de destaque nas bancas centrais com a capa visível, em vez do lugar das prateleiras onde a fina largura das lombadas lhes daria o anonimato. Sentou-se num dos sofás disponíveis da livraria um tanto barulhenta para o seu gosto, e folheou os livros que quase lhe saltavam das mãos, parecendo vivos e confirmando o seu ímpeto de curiosidade. Queria ter a certeza de que essa segunda geração se matava a si mesma, redobrando-se em formas estafadas de escrita, anulando-se pela teimosia em escrever o acessível. Mas o que encontrou estava para lá do seu genuíno desejo. No primeiro livro, encontrara uma escrita quase confessional; longos ensaios diarísticos onde cruzava o quotidiano com questões profundas de existencialismo, usando um tom de proximidade, como alguém que nos fala ao ouvido. O segundo romance abria mesmo num despudorado diálogo corrido, lembrando os guiões de cinema, mais próximo portanto da conversação natural, conduzindo a leitura a um ritmo acelerado e contagiante. Ao contrário do que esperava, tinha diante de si uma boa escritora. Não precisava de ler os dois livros na íntegra. Sabe-se ao ler as primeiras páginas. Dirigiu-se para a fila da caixa para os comprar e enquanto esperava, pousou o olhar durante algum tempo na fotografia da escritora, colocada na contracapa. Os dois dias pareceram-lhe uma eternidade; mas obrigava-se a eles, não querendo mostrar, afinal, um súbito entusiasmo. Ligou para o jovem editor e, sem grandes explicações, informou que podia contar com ele.

Apontamentos #16

A guerra infelizmente começou. E já foram tantos os dias em que se falou do seu início que até parece não causar espanto. Já se esperava, será o que muitos dirão. Por mim, enquanto houver possibilidade de diálogo, nunca se espera uma guerra; mas a forma como todas as fontes de informação esmiuçaram esta possibilidade, acabou por normalizar o impacto do seu início. É deste poder a que me refiro neste texto. Vamos ter a possibilidade única na História de acompanharmos todo o seu desenrolar, avanços, recuos, ameaças, diálogos, mortes, comunicados, pressões, e, desejamos rapidamente, o seu desfecho. Mas até lá vamos estar expostos, como nunca estivemos, a demasiada informação. Este texto é apenas sobre isto: o excesso de informação leva-nos a uma profusão de pequenas ‘guerras’ interiores que não poderemos viver diariamente. Não se trata de enfiar a cabeça na areia e fingir que nada está a acontecer. Está a acontecer e bem perto de nós. Devemos estar informados e ter o conhecimento exato do que irá suceder-se a partir daqui, mas apenas o conhecimento exato. Nem mais, nem menos. Que não se caia na tentação de viver ao minuto este acontecimento horrendo, só porque temos meios para isso, até porque grande parte da informação será redundante (e muito dela, pouco factual, manipulada, inexata). Penso que se resumirmos a nossa atenção aos telejornais diários será suficiente. Infelizmente, se algo aterrador acontecer, sabê-lo-emos na mesma. Mais do que isso, é alimentar uma segunda guerra na nossa mente, porque parece ser hoje obrigatório saber de tudo no minuto seguinte. Só estaremos a alimentar fantasmas, acicatar receios, empolar desconfortos. Se queremos dobrar a intensidade com que vivemos este tempo, que o façamos de outro modo: a trabalhar com brio e felizes por ainda o podermos fazer; a amar cada vez mais os nossos, porque ainda o poderemos fazer; a continuar os nossos hobbies, porque ainda o poderemos fazer; a sorrir, a conversar, a aprender, a partilhar e, acima de tudo, viver com enorme gratidão pelo privilégio de ainda podermos continuar a fazer todas estas coisas. Não multipliquemos a força desta guerra dentro de nós.

Apontamentos #15

"Sem contacto corporal não se criam vínculos". É o alerta deixado por Byung-Chul Han, no seu mais recente livro Não-Coisas. Ultrapassou-se a ideia do ter para consumir. O consumismo, nestes tempos acelerados, parece ser já ideia ultrapassada. Porque mais do que ter coisas ou simplesmente possuí-las, será vivê-las, experienciá-las. Deixamos, portanto, que a nossa realização pessoal dependa da excitação que se ganha ao viver com tal coisa e não apenas por possuí-la. Não queremos usar um relógio de marca para nos sentirmos superiores. Queremos usá-lo porque ele nos promete uma experiência, um estado de espírito, uma aventura sensorial. É algo que ultrapassa o objeto em si mesmo. A luta desenfreada passará por tudo aquilo que as não-coisas nos prometem. Voltamos ao assunto de sempre? Claro que voltamos. Lá ao longe acenam-se quatro dias de trabalho por semana, um ordenado garantido, para que estejamos finalmente libertos para experienciar tudo o que a AI irá ainda inventar. A nossa escolha, que julgaremos resultado da nossa mais íntima decisão (a falência do livre-arbítrio), estará sempre condicionada com o que nos será dado a selecionar. Debater-nos-emos? Não. Porque o algoritmo conhecerá tanto de nós que será capaz de prever acertadamente, quando ainda nos julgamos indecisos a olhar para as hipóteses. Vi algures um cartoon com duas amigas a conversar, onde uma delas dizia: "O homem estava ali sentado na esplanada, sozinho, a olhar para as pessoas que passavam, para a rua e para as árvores, meio a sorrir, imóvel,  e não fazia nada, nada, apenas estava ali sozinho sentado, nem sequer pegava no telemóvel. Parecia um psicopata!"  Muito dizia esta vinheta, porque hoje se estranha quem simplesmente está, e quem foge do seu mundo fechado que se reflete no ecrã do seu smartphone, é já considerado um exótico, malicioso, excêntrico enfim, perigoso. Byung-Chul Han chega a chamar-nos de Phono Sapiens. Enquanto espero que o treino de ténis do meu filho termine, dedico-me à pintura de doodles. Se é para me olharem com suspeita, que o façam com o alarde todo.

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Apontamentos #14

Deborah Levy dá uma grande lição: não é a forma que interessa, mas sempre o conteúdo. E dito isto, não há frase que seja artifício, ou militância de carreirista, de malabarista de palavras sem sentido. Qualquer frase diz o que é necessário dizer, sem precisar de umas quantas antes a abrir caminho. O caminho é feito a direito; ou como ela diria, visto que 'caminho é feito a direito' soar vago e batido: Os meus pés conduziam todo o meu corpo para a casa onde eu cresci e tentei ser feliz. Há tanta sinceridade em como se revela ao leitor. Fala-nos ao ouvido num jantar demorado, a espremer até à última gota as garrafas de vinho compradas fora de horas na mercearia dos paquistaneses. E é em toda esta informação desnecessária que reside o ponto alto da sua escrita. Frases que completam ciclos a lembrar os maneirismos do Thomas Bernhard; repetições afinal essenciais para nos lembrar que o quadro tem várias pinceladas e várias cores (desconstruir a gestalt ). E ainda uma simplicidade despojada. A grande urdidura está nos olhos dos personagens, nos modos, nas entoações de voz, na política, na emancipação da mulher. Talvez seja essa aspereza que envolva tudo subitamente num halo de catarse; a infância a galopar como um frémito, obrigando-nos a uma dança desengonçada, como se a mente ao chegar aos seus lugares mais reconditos necessitasse da ajuda de todo o corpo. Que bela é a escrita de alguém que dança nua à luz e calor da fogueira, revirando os olhos até ao branco máximo das órbitas.

Apontamentos #13

Nada haveria sem memória. Nem sequer o presente, um espaço a acontecer e a comer-se a si mesmo. As capacidades que temos em memorizar são uma dádiva. Não haveria sequer pensamento. Seria como ler uma frase e ao chegar à ultima palavra já não nos lembrarmos da primeira. Sem tempo para dizer isto é isto. Como então censurar quem a use como fonte de criação? Pertence ao belo e as coisas belas quase nem dono têm. Esta é a minha história, mas podia ser a tua. Ou de niguém e pegar-se nela como uma roupa que se veste, acabada de tirar da corda, numa tarde de verão. Não haveria escritores sem a memória, e aí sim o mundo seria pior ainda, mesmo que também não tivesse história para se comparar, e poder dizer que já teve melhores dias. A memória é o mundo dos escritores. Veste-se o mundo com a memória dos livros. Os livros de verão tirados da corda acabados de enxugar, algumas letras ainda molhadas, a dizerem isto é isto. Lembro-me perfeitamente. Sem ela seríamos uma dança permanente ao som dos Idles. 

Apontamentos #12

Faço da memória um cavalo cansado. Afunilo os flancos no seu dorso,  galopo em picadeiro sem vedação, o terreno aberto parece quase área de voo e sem permitir o trote gracioso, esfalfo a história. A memória torna-se um objecto, amuleto, figura sacra no oratório último. Mas também fonte de prazer, promíscua, banalizando a facilidade, a vulgaridade com que se abre e se deixa partilhar. Que herança maior? O futuro em aberto nunca será tão luminoso quanto a noite de maior bréu já vivida e que se tornou identidade, pele, perfume. É preferir o facto à hipótese. Mas é preciso a distância necessária para evitar o julgamento. A balança das contas é jogo que ainda mói, e de onde se sai sempre a perder. Só tempo traz o desprendimento, a libertação, a clivagem necessária para olharmos para trás sem que se sinta a vertigem de voltar a cair no pólo magnetizador. E quando o assombro se transmuda em laivos de melancolia, uma tristeza indefinida, quase intocável, subimos ao cavalo, afagamos-lhe a crina e toca. O vento no rosto ajuda à simulação, uma máquina do tempo interina, agitam-se canaviais, reverberam ondas, arrefece-se nas praias da noite. Pense-se no frio de quando se passa a noite num automóvel. Um frio tutânico, visceral, insuportável. Efeitos colaterais da viagem, talvez. Como não perdoar o corpo que peça amparo e conforto? Ainda que se coma mais do que nos oferecem na tijela.

#12

assim me nasce o poema
da luz rarefeita da brecha de sombra
do silêncio entre palavras de bocas fechadas
da música concreta ao levantar da agulha
do dia em falta de regar a planta

o meu poema é a persistência do erro
fecundo em desalinho e certeiro na ausência

que mar fica das marés que secam nos olhos?

Apontamentos #11

Voltar a ser sombra. O vento uma única música a preencher o vazio do corpo, todo ele respiração. Quase não se move, apenas o necessário para o ar encontrar um espaço por onde passar. Ser silhueta é fazer morada no silêncio. Largar os pertences num canto, não lhes dizer dia de volta. Deambular continuamente como um aroma. Coco, lima, anis, jasmim, perfumes que perdurem e reverberem na imaginação. Não ocupar espaço algum, dizer não a um nome pelo qual nos possam chamar. Não ouvir qualquer nome com a intenção de nos chamar, de nos trazer de volta. Não ter razões para querer estar de volta. É possível caminhar dia e noite à procura deste vazio. Fi-lo anos a fio pelos corpos indesejados, à espera que o certo me chegasse de vez, me apanhasse num todo, me atropelasse feito certeza de que se tem fome. De que valeu a espera? Janelas abertas a um sol incómodo, persistente. Eu só queria um silêncio onde adormecer e acordar sem sobressalto. Fiz da espera uma idade displicente, cortava valor à importância da paisagem em redor. Deve ser assim a velhice, um estar esquivo de quem só sabe fugir. Olhar de frente a verdade e fingirmo-nos ausentes, imperturbáveis, inacessíveis. Adiei a tarde de primavera em que ao sentar na relva fresca se resume o impossível de nomear. E assim se deixa de acreditar nas tardes plácidas de março, nos reflexos prata da água que o tridente esguicha pelas nereides, lagos marmóreos que nos cegam quando a luz incide. Acredita-se nos jardins como uma fé sem deus. Há criação e morte, desordem e abandono. Mas também harmonia, embora tão devagar que nunca se tem tempo para a ver acontecer. São assim os jardins secretos. Não porque nos escondemos neles. Decidimos ser sombra, arte plausível até no horto mais descuidado, no baldio traseiro da indústria abandonada. Por vezes, há apenas o odor do óleo batido pelo calor, de uma azeda de berma apertada entre os dedos. Se formos eficazes no abandono, tudo acabará por nos servir. Passamos de exigentes a contemplativos sem transtorno maior, enfeitiçados. E não será essa a cegueira que se procura? Porque assim há a razão que nos falta em tudo o resto. Custa menos concluir que a vida é apenas isto. A vida é apenas isto? É isto viver? Mantra que enlouquece a boca e baralha o pensamento. A doce e fatal tentação da sombra. Ser espírito, ideia de poema, seiva de timbre. Habitar o imaterial, ser fluxo e gesto, ser pensamento sem palavra, conversa sem diálogo. A melhor casa do mundo, o esquecimento da sombra. Ser-se omnipresente, por fim. É conhecido que nos preenche mais tudo aquilo que nos falta. Acontece uma ligeira comoção nesta descoberta. São estes os axiomas que mais nos ferem. Quero dizer muito do que não fui. É preciso ter idade para isso. E o dia chega em que somos mais aquilo que não fomos do que o contrário. Transformamo-nos num conceito, teorema, projecto. 

Apontamentos #10

Já tudo se disse sobre os perfumes. Süskind além de ter escrito um livro que todos gostámos de ler, escreveu um livro que todos gostaríamos de ter escrito. Se uma ideia poderá ter princípio e fim, tê-lo-á alcançado nesse objeto de arte. Resta a experiência própria dos odores, uma vivência intrínseca, músicas que cada um ouve sem possibilidade de testemunhá-las ao outro. A fragância transmuta-se no imaginário e ganha peles caleidoscópicas, habitáculo intricado de memórias únicas, visões irrepetíveis na tela fílmica que transportamos no interior. Classe!, diria o Ruben A., numa tentativa infrutífera do tanto para dizer, rematando a conversa nessa interjeição; esgotado de tentativas, de palavras a rodear o indizível.

O possível de acrescentar é apenas uma visão episódica e pessoal. Facto extraordinário sucedido pelo ano de 1995, no meu primeiro carro, carta acabada de tirar no início desse verão, liberdade com pulso sem instrumento de medição possível. À falta de redes sociais, abordava-se com o coração nas mãos feito poema caligrafado em folhas A4. O famoso send obrigava dirigirmo-nos a alguém pessoalmente, olhos nos olhos, sorrir, conversar, antever em poucos segundos a ínfima possibilidade de êxito. No verso do poema o número de casa. Entregava-se em mãos esse tesouro quase sempre escrito na urgência do impulso. Depois era esperar. Um, dois, três dias. Algumas vezes o telefone tocava e sabia-se finalmente que a sorte nos calhara.

Mas findou-se o verão sem telefonema. Foram precisas as primeiras chuvas do outono, uma enorme dose de tédio e uma inesperada saudade pelos dias fulgurantes para se ter decido a telefonar-me. Cheguei-lhe à lembrança e lá discou o número no poema guardado entre as folhas de um livro que nunca acabara de ler. Sabia-me sobra das tardes de Julho, mas eu jogava seguro nos dias molhados; dava-me melhor comigo mesmo nas atmosferas cinzentas, e agora até adornado por um carro mais velho do que a minha própria idade. E foi nele que falámos noite dentro. A chuva a castigar o para-brisas. Numa aberta, ainda tentámos o jardim intricado. Terá sido aí um primeiro beijo, uma detonação a sacudir o corpo. Mas foi no carro que tudo o resto se inventara. Colmeia agitada, Kawabata estendido no tatami incendiado por púberes, vapor de sauna portátil, aquário fumegante.  

Sabia-me sobra do verão mas julguei-me início de um próximo inverno quente e condicente com o tanto que se apostara nessa noite. Afinal fogacho de um braseiro que a chuva apagou. Nunca mais a vira, nunca mais me ligara. Não havia desamigar a comprovar que tínhamos falhado. Talvez se tenha proposto exceder-se apenas por uma noite. Ficara-me então o seu perfume. Não no meu corpo, porque todo camaleónico era acessível a novas histórias por escrever. Mas a sua fragrância, essa, alojara-se a termo incerto nos estofos, nas fibras da consola de instrumentos, no tecido dos cintos de segurança, na aspereza dos tapetes, nos plásticos das manetes, no forro do tejadilho, na chapeleira. O meu automóvel vira-se alagado por aquele aroma que teimava em não sair. Por vezes, conseguia esquecer-me dele. Mas num dia de mais calor, no abrir de portas, voltava reativada a recordação sudorífera daquela noite de outubro.

A coragem do meu poema revelara-se insuficiente perante tamanha destreza entre aparecer das sombras e através das mesmas ousar desvanecer-se.

Apontamentos #9

Dois ramos de flores. Na bifurcação central do cemitério acontece a primeira escolha. Seguindo pela direita, sobe-se até ao último talhão. Uma jarra aos pés e outra à cabeça. A terra secou, não chove há alguns dias, e ficou dura a ponto de não se conseguir espetar uma simples gerbera ao alto, junto à tabuleta negra com o número a branco. Reparto um dos ramos pelas duas jarras, coloco pequenos seixos para que não voem. O segundo ramo será mais abaixo. Ficaram quase juntos. Acredito que vagueiem em pequenos passeios durante a noite, habitando um bardo mais tranquilizador que a própria eternidade. Falarão de algumas coisas. Eu próprio falo em voz alta, a máscara permite-me ter esse monólogo audível sem receio de outros olhares. Recapitulo alguns dos episódios mais marcantes, a maior parte deles em imagens insignificantes, do quotidiano. Ir aos correios levantar a reforma, tocar no botão vermelho do autocarro quando íamos às compras, colocar a mão no vidro do jazigo do santo padre cruz, num mimetismo que a deixava orgulhosa. Aprendi o silêncio em espaços assim. A reverência por algo que se anunciava maior remetia-nos a um lugar na terra ainda mais minúsculo. Mas não me importava. A cidade continuava a bulir, ainda que aparentemente distante, e em cada janela uma possibilidade de histórias por descobrir. Com ele batia records de bolas trocadas na praia. As raquetes de madeira chegavam a cruzar o número das centenas. Desenvolvíamos técnicas de força e posição que deixavam a bola sempre fácil para quem a devolvia. Éramos campeões do nosso próprio campeonato, com as nossas próprias regras, e não competíamos com ninguém. Ao almoço bradávamos a contagem que subia a cada verão. Era a nossa forma de rezar. Era tão alto e corpulento que quase me esmagava quando num acesso de ternura me abraçava sofregamente. Eu fugia-lhe fingindo-me enfadado. Hoje não lhe fugiria. Enfim, falava da aprendizagem do silêncio. Dos corredores encerados do seminário de Penafirme ao seminário de Gouveia. Uma manhã fizeram-me um teste psicotécnico para avaliar a minha propensão para o sacerdócio. Imagino as variáveis. Muito receptivo na arte do silêncio e do recato assim como na infração do celibato. Estava ditada a sentença em me tornar um excelente amante. Silencioso e competente. Mas isto já não falo em voz alta. São pensamentos que se infiltram na sequência. Na linguagem binária chamam-se pacotes com erros. 

Apontamentos #8

O que te sobrou da viagem? A memória, que um dia evocarás como uma herança pilhada à própria vida? As estações do ano devolvem-te o tempo de espera, nessa estrada onde se cruzam diferentes alternativas. Nunca ousaste voltar atrás, é um facto. Mas quantas vezes erraste a lição? Não saberiam os teus pés há muito que caminho seguir? O que te fica? O pouco que deixas nos outros? E se nunca mais os encontrares para que te possam retribuir o que de  ti algures no tempo resolveste partilhar? Quase nada. Muito pouco. Entre sombras, esquinas, passeios molhados, entradas de prédios, foste vulto, animal espantado pelos passos estranhos de alguém que já não devia passar àquela hora pela rua. O que te fica? Um frio permanente, o céu violáceo, as luzes mortiças de uma cidade próxima. Antigamente os cafés serviam-te de casa. Entravas com boas-noites como se te sentasses num sofá a ver televisão depois de um dia de trabalho. Serviam-te com a mesma distância familiar de quem não quer incomodar e entre mãos no rosto consumias horas até te deitares. Que estrondo era o mundo de então. Uma avalanche de mistérios insondáveis, frutas exóticas a despertar o palato, roupas que se vestem para ter a certeza de que não nos servem. E nesse tempo, havia verdade? Ainda que permanecesses quieto sempre no mesmo sítio? Quantas perguntas ainda faltarão o teu silêncio responder? Acreditavas que seria assim a melhor forma de aprender o ofício. A caneta enchia cadernos com a mesmo precisão de um escopro, trabalhando um pedaço de madeira esquecido que sobrevivera à última queimada. Pouco sabias de ti. Quase o mesmo que sabes hoje. Tacteias em busca de uma novidade, de uma qualidade última que te sirva de plena salvação. Sim, eras o primeiro a chegar e o último a sair. Medias a movida com olhos de engenheiro, calculavas o espaço e esforço, a resistência dos materiais, os corpos rejuvenescidos pelo engano. É tempo de falar sobre esse tempo. Apenas para que entendas que, afinal, nada mudou. A fome é a mesma. O assombro também. Ficou o equívoco como nome do meio. Havia a desculpa a raiar em afirmação. Não se conta um das minúsculas partes separadas que foste. Repara como sou capaz de falar de tudo sem que nada te diga em concreto. Mas estão aqui, entre as fissuras da memória, em feridas mal suturadas, o que se revolve desses tempos e me chega feito filme amarelecido. E regresso ao automóvel de faróis acesos para a Praia Azul, a esse frio imenso - solidão já tão entranhada - de se viver com a permanente sensação de perda. Regressam as fotografias cobertas de poeira. Um quadro no alto do quarto. Uma vivenda virada à chuva de Fevereiro. Não, uma bicicleta a percorrer as casas da Nazaré, uma cabine telefónica a planearem-se fugas e encontros. O café da manhã à espera que as lojas abrissem. E à noite tudo igual, ou seja, corpo sem nome dedicado à febre. Acendia cigarros. Demorava-me tanto nesse gesto que por vezes os filtros se colavam aos lábios. Tudo era pensado cinematograficamente. Um dia chegarei lá. O texto que se alongue e respire por si mesmo. Já não conto marés, nem horários de autocarro nas estações de camionagem. Resta-me a fuligem, a patine, a corrosão. No fundo, o que já almejava tão mais fugidio quanto sitiado. 

#11

Nasciam-te poemas nos gestos

tão dissimulados quanto vultos à boca da noite.

Mas eu senti-os e acreditava neles

como se fossem escritos apenas para mim.

E em muitas estações foram o parco alimento

a derradeira luz

a última carta da ronda da semana.

Podiam ser praias ventosas de inverno

ou clareiras extenuantes de verão.

Em todos eles eu inventava mensagens codificadas,

labirintos, a linha fria do mármore.

Depois, muito a custo, acordei em mim várias manhãs.

Obriguei o corpo a viver com os seus semelhantes,

ciente de que apagaria a já sumida e cansada claridade.

Eu dizia que a vida era a fuligem do cansaço dos dias,

e previsivelmente,

achei-me também eu cansado de ler os poemas que não existiam.

#8

o tanto que te sorvo de ausência
que julgo água fresca
este cansado ar

 

(o que acrescentam as minhas palavras
ao que nunca foi escrito?)

#7

Imobiliário

 

Façamos como na arquitectura moderna.

Reconstruamos um novo coração e alma

para a nossa fachada em ruínas.

Apontamentos #7

IMG_20180825_191945.jpgAtravés das conversas escritas entre Haruki Murakami e o maestro Ozawa, no livro Absolutely on Music, numa lindíssima edição da Vintage, redescobri a pianista também japonesa Mitsuko Uchida. Irrepreensível, de notas claras e seguras e com uma noção de ritmo implacável. Penso não se tratar de uma interpretação de voz própria, mas totalmente dedicada à voz genesíaca do compositor. Na obra de Beethoven, Concerto para Piano Nº3 em Dó Menor, a clareza de todas as notas, ainda que em oitavas mais graves, oferece ao ouvinte uma segurança tão sólida, que é impossível não nos deixarmos render à simples audição da obra, sem cair na habitual tentação de julgar se se poderia atacar desta ou daquela forma uma ou outra nota. Os arpejos são precisos ritmicamente, as escalas cristalinas, as pausas respirações acertadas, também elas sons e música. Sem o mistério de Martha Argerich ou o romantismo de Hélène Grimaud, faz o segundo movimento com uma doçura e delicadeza mecânicas, deixando bem definidas as notas sem pedal, criando assim uma atmosfera tão intimista que parece estar a tocar na nossa própria sala.

As conversas entre escritor e maestro são tão despretensiosas que nos sentimos incluídos facilmente. Há apenas o prazer em ouvir as mesmas obras, mas por intérpretes e condutores diferentes; sentir a textura da orquestra, constatar que nesta imperam os sopros e naquela a camada sonora das cordas. Se o maestro cede lugar ao pianista nos ataques ou se é o pianista que se molda ao tempo do sustenido da orquestra. Ouvir as várias camadas instrumentais, as tão saborosas combinações entre oboé, clarinete e flauta, o jogo entre violinos e violas, o conforto dos arcos nos contrabaixos.

Como é possível ficar indiferente a uma beleza tão única? A um acontecimento tão raro e irrepetível? Desperta-se o nosso gosto pelo Belo, pela tentativa do Perfeito, por tudo o que é imaculado. Eu sigo a conversa página a página, e em vez de estar a ler inglês, daria tudo para os ouvir em japonês, mesmo não entendendo uma única palavra. Ouviria as obras que o Murakami escolheria na infinidade de discos e ficaria a imaginar o resto na minha cabeça, observando os gestos bruscos mas comunicativos de Ozawa.

#5

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A espada de Judite foi uma lágrima de âmbar

a escorrer-lhe pelo pescoço. Já antes o mesmo

perfume se libertara do lenço deslaçado, para furtiva

entre os abissínios, chegar ao seu leito afogueada.

Porquê as taças de vinho sempre cheias? Os gestos

na falta de melhores palavras? Que metal brilhava 

despontando das cortinas sanguíneas de Caravaggio?

- Que saia a velha! - ordenara finalmente ébrio.

Tanto cansaço a torná-lo cativo, as mãos num

último esforço ao peito túmido, à ferrugem do cabelo,

enfim o beijo violado que o adormeceria de vez.

Assim Judite separou-lhe a cabeça do marmóreo corpo

e tudo se fez frio e silêncio, transtorno e drama.

Viveu-se a madrugada com o tojo crepitando sob os pés.

 

Apontamentos #6

Deixar entrar a luz. Iluminar o gesto, a sombra a bater nas paredes. O movimento transido e a condenação do silêncio. Onde te cabe tanta tristeza nesse pulso trémulo? Na pele quase translúcida a denunciar finos rios azulados? Há a loucura das aves que te tenta, o voo raso à migalha, a expansão em arco quando o vento muda a favor. O belo de todas as coisas frágeis, quase dramáticas. Haverá sempre uma tarde fria onde inventar esta procura. E o que te fica do sol? Um halo intocável de minúsculas partículas douradas levitando diante dos olhos. Não tivesses certeza do silêncio e julgarias vozes a perfurar as janelas, a clamarem o teu nome do lado de fora. As pontas dos dedos encostadas ao vidro gelado. E a comoção a expandir-se desde a garganta como uma fonte a despontar de negras lajes. Enumeras objectos. Papéis amarrotados, um porta-chaves perdido da argola, um frasco minúsculo de perfume. São os despojos possíveis, ninharias, santuários portáteis. Quem fui eu nesta vida? E nesta? Como seria eu para guardar este amuleto desirmanado já da sua própria história? É tudo tão ofensivo nestes momentos. Entender que o pouco que sobra não é também suficente.

Apontamentos #5

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Há vários meses que se senta na esquina da Rua Tomás Ribeiro com a Avenida Fontes Pereira de Melo, próximo da entrada para o metro de Picoas. Não falta um dia. Mesmo que chova, resguarda-se um pouco melhor sob o varandim do prédio. Carrega consigo uma mochila desportiva e um saco com cobertores, que dobra em rectângulos perfeitos antes de se sentar sobre eles. Chega pelas 9 horas da manhã e ali fica o dia inteiro, a ler. Coloca à sua frente um copo de plástico azul pronto a receber moedas de quem passa. O rosto rubicundo pelo frio e pelo sol, louras melenas escorridas pela humidade e um piercing no sobrolho ajudam a compor um rosto de ar vagamente escandinavo. As roupas – certamente oferecidas - estão limpas, embora desajustadas ao seu corpo. Todos os livros que lê são de língua portuguesa, requisitados numa qualquer biblioteca, com os selos de arquivo ao fundo das lombadas. Lê em voz alta, ainda que as palavras sejam impercetíveis, movendo os lábios a cada sílaba, treinando o idioma e a pronúncia. Desde o primeiro dia que nutro curiosidade por esta figura. Chamo-o mentalmente de O Leitor. Quando almoço por volta do meio-dia encontro-o já sentado na esplanada do mesmo restaurante. Nunca entra para o conforto do ar condicionado. Pede sopa onde mergulha os pedaços de uma carcaça e o prato do dia que come calmamente. Quando termina, paga, levanta-se e volta a dar os dez passos até ao seu lugar, onde se senta novamente sobre os cobertores, para ler a tarde inteira. Se cruzamos o nosso olhar com o seu, não existe o mínimo vislumbre de submissão ou mesura; há até uma frieza assustadiça de um animal surpreendido numa clareira. Qual será o verdadeiro propósito de alguém que decide mendigar apenas para ler? Revejo um niilismo profundo neste acto. Encher a nossa breve passagem com o maior número de palavras possível, experienciando através de personagens, tramas e culturas o maior número de existências que nunca conseguiremos viver. Decidir viver tudo, porque na verdade, quase nada se pode viver. Aceitar esta falha – desistência - existencial com a procura de tudo o que possa preenchê-la. Nunca lhe dei uma moeda durante estes meses. Nunca me comoveu com a fragilidade dos necessitados. Mas não fará sentido, afinal, dar uma moeda a alguém que encontrou na Literatura uma forma de vida? Um dia ganho coragem e peço-lhe que se deixe fotografar, que me conte de onde vem, por quanto tempo decidiu mendigar para ler, o que pensa da família e dos conceitos que a sociedade inventa e coloca em prática. Mas sei que terei um ser vivo cheio de vida pronto a partilhar vida e a responder-me vivamente o que pensa. E por enquanto, gosto de imaginá-lo como uma pedra, que sem incomodar ninguém, numa permanente posição meditativa, devolve e preenche com uma sábia beleza os dias vazios de quem a olha.

Apontamentos #4


A pianista Martha Argerich recorda-me dos corpos femininos de Paula Rego. Torso e membros largos. As mãos que completam os grossos antebraços, lembram um gigantismo de fábulas; dramáticos os nós que ligam os metacarpos às falanges proeminentes. Mas em todos esses corpos pressente-se um halo etéreo, uma silente magia por descobrir, que nos impele e ao mesmo tempo arrebata.

Depois acontece o movimento. E como alguém que tenha apertado o botão de um mecanismo oculto, as mesmas mãos esteticamente brutas revelam-se capazes da mais harmoniosa dança sobre as teclas, muitas vezes impiedosas e rudes, mas quase sempre delicadas e afectuosas. São mãos de mãe que tratam a ferida do filho que se magoou a brincar nos campos. Mãos que ao mesmo tempo repreendem e apaziguam.

Apontamentos #3

Existe uma postura no yôga que me é muito importante. O ásana da árvore é das coisas mais simples de fazer e traz consigo um profundo ensinamento; a noção do nosso próprio equilíbrio. De pés descalços, porque é fundamental a ligação da pele com o solo, e unidos, para melhor sentirmos as ligeiras oscilaçoes do nosso peso corporal. O tronco totalmente erecto com os braços caídos. As mãos unidas a cada uma das pernas. Visualmente, tentamos que o nosso corpo imite o tronco de uma árvore. Interiormente, e aqui começa a beleza de tudo isto, descobrem-se inúmeras forças inesperadas que nos obrigam a procurar o equilíbrio para nos mantermos erectos. Quando confortáveis, e de respiração já tranquila, podemos ainda fechar os olhos e aumentar a sensação de ser necessário não perdermos a concentração e, por conseguinte, o equilíbrio.

Pensemos nesta simples prática como um aquecimento para as contrariedades do dia. Não é possível que nos permitamos andar ao sabor dos ventos inesperados que preenchem o nosso quotidiano. Mais do que controlar o corpo, é alertar a mente e treiná-la para que nunca se perca a nossa rectidão de tronco de árvore. É claro que falo mais do que um simples exercício de yôga; é claro que ser árvore é uma metáfora e apenas um enquadramento do que pretendo que seja pensado.

Apontamentos #2

Inesgotáveis as conclusões que se poderão retirar da obra de Thomas Mann, A Montanha Mágica. O homem perante a doença, tornando-se consciente da sua vulnerabilidade, adquire novas camadas de profundidade como ser humano. Um engenheiro naval, de raciocínios objectivo e prático, transforma-se num personagem filosófico, num potencial sociólogo, interessado por botânica, propenso à meditação, sensível à música, romântico pelas breves e banais belezas do quotidiano. O seu espectro de interesses alarga-se como a abertura de um gigantesco leque, tudo apenas porque pressente em si a fragilidade do seu ser físico. Aquele que fora um burguês afectado e impiedoso nas interpretações do seu próximo, emociona-se consigo mesmo na condescendência e aceitação que se revela afinal capaz. É uma mudança interior sem tempo, história ou religião. Capaz de se realizar em cada um de nós, transformando-nos irreversivelmente. Houvesse a obrigatoriedade da permanência em montanhas assim, um tempo dedicado ao auto-encontro e reconhecimento, e o ser humano subiria um degrau na sua capacidade de melhor entender o próximo.

Apontamentos #1

É fácil duvidarmos da velocidade do mundo e de quais, afinal, serão os benefícios que encontraremos nela. Os dias pulsam a um ritmo exacerbado. Ainda que tentemos acompanhar a surpreendente quantidade de informação, fingindo por momentos aceitar as regras do jogo, chegará sempre o momento da desistência, uma falta de fôlego de quem corre mais do que verdadeiramente consegue. Não nos espantemos de quem desista do mundo a que chamamos de real. Enumero quem procure campos de retiro, religiosos ou não. Quem abandone as grandes cidades e reaprenda a viver como há três gerações atrás. Ou, em última instância, quem não se mova de onde sempre esteve, mas que mergulhe num isolamento que vislumbra como espécie de última salvação.

Virarmo-nos para um mundo interior, construído à nossa medida, passa de opção a necessidade. Este ruído desenfreado de conteúdos, e por sabê-los muitos deles logros de informação, artifícios que apenas alimentam uma máquina que não pode parar, contraria a nossa necessidade básica da busca do conhecimento. Este é o momento. Desistir do novo conhecimento parece, absurdamente, a solução.

#1

já foi espaço exíguo
o oco formado pelas nossas bocas

 

de que só resta a poeira do esquecimento

 

o inesperado florescer entre pedras

#37

DSC_3599_baixa.jpgWash me away

clean your body of me

erase all the memories

they will only bring us pain

and I've seen all I'll ever need

 

Matthew Bellamy

#35

DSC_8915.jpg

 dizes: põe nos meus os teus dedos

e passemos os séculos sem rosto,

apaguemos de nossas casas o barulho

do tempo que ardeu sem luz.

sim, cria comigo esse silêncio

que nos faz nus e em nós acende

o lume das árvores de fruto.

 

Vasco Gato

#32

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 Há por aqui outras paisagens?, perguntam por vezes as crianças.

Eu parto o caminho em pedaços e ofereço-lhes

Serpentinas, serpentinas, que elas recebem como maçãs e papoilas.

Porque tempos houve em que dormíamos nas palavras,

Tempos houve em que fazíamos explodir o tempo.

 

Robert Schindel

#31

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 e à chegada da noite, tépidas brisas

acariciam as árvores. Imaginamo-las os nossos

corpos despidos, dançando nas sombras

#20

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nasce com o rumor dos próprios corpos

com o bater dos nomes entre os ombros

tão dóceis mar de músculos

 

Gastão Cruz

#18

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Trazem as árvores insignificantes

o maior distúrbio aos ventos; arredam-nos,

alçam outros armazéns sonoros

casas de relâmpagos e de cataclismos.

 

Luiza Neto Jorge

#15

DSC_5447.jpg

Ficarão para sempre abertas as minhas
salas negras.
Amarrado à noite,
eu canto com um lírio negro sobre a boca.

 

Herberto Helder

#14

CSC_0487.jpgpartir de novo seria tudo esquecer

mesmo a ave que de manhã vem dar asas à boca recente do sonho

mas decidi ficar aqui a olhar sem paixão o lixo dos espelhos

onde a vida e os barcos se cobrem de lodo

 

Al Berto

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