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o mundo quieto

o mundo quieto

Apontamentos #3

Existe uma postura no yôga que me é muito importante. O ásana da árvore é das coisas mais simples de fazer e traz consigo um profundo ensinamento; a noção do nosso próprio equilíbrio. De pés descalços, porque é fundamental a ligação da pele com o solo, e unidos, para melhor sentirmos as ligeiras oscilaçoes do nosso peso corporal. O tronco totalmente erecto com os braços caídos. As mãos unidas a cada uma das pernas. Visualmente, tentamos que o nosso corpo imite o tronco de uma árvore. Interiormente, e aqui começa a beleza de tudo isto, descobrem-se inúmeras forças inesperadas que nos obrigam a procurar o equilíbrio para nos mantermos erectos. Quando confortáveis, e de respiração já tranquila, podemos ainda fechar os olhos e aumentar a sensação de ser necessário não perdermos a concentração e, por conseguinte, o equilíbrio.

Pensemos nesta simples prática como um aquecimento para as contrariedades do dia. Não é possível que nos permitamos andar ao sabor dos ventos inesperados que preenchem o nosso quotidiano. Mais do que controlar o corpo, é alertar a mente e treiná-la para que nunca se perca a nossa rectidão de tronco de árvore. É claro que falo mais do que um simples exercício de yôga; é claro que ser árvore é uma metáfora e apenas um enquadramento do que pretendo que seja pensado.

Apontamentos #2

Inesgotáveis as conclusões que se poderão retirar da obra de Thomas Mann, A Montanha Mágica. O homem perante a doença, tornando-se consciente da sua vulnerabilidade, adquire novas camadas de profundidade como ser humano. Um engenheiro naval, de raciocínios objectivo e prático, transforma-se num personagem filosófico, num potencial sociólogo, interessado por botânica, propenso à meditação, sensível à música, romântico pelas breves e banais belezas do quotidiano. O seu espectro de interesses alarga-se como a abertura de um gigantesco leque, tudo apenas porque pressente em si a fragilidade do seu ser físico. Aquele que fora um burguês afectado e impiedoso nas interpretações do seu próximo, emociona-se consigo mesmo na condescendência e aceitação que se revela afinal capaz. É uma mudança interior sem tempo, história ou religião. Capaz de se realizar em cada um de nós, transformando-nos irreversivelmente. Houvesse a obrigatoriedade da permanência em montanhas assim, um tempo dedicado ao auto-encontro e reconhecimento, e o ser humano subiria um degrau na sua capacidade de melhor entender o próximo.

Apontamentos #1

É fácil duvidarmos da velocidade do mundo e de quais, afinal, serão os benefícios que encontraremos nela. Os dias pulsam a um ritmo exacerbado. Ainda que tentemos acompanhar a surpreendente quantidade de informação, fingindo por momentos aceitar as regras do jogo, chegará sempre o momento da desistência, uma falta de fôlego de quem corre mais do que verdadeiramente consegue. Não nos espantemos de quem desista do mundo a que chamamos de real. Enumero quem procure campos de retiro, religiosos ou não. Quem abandone as grandes cidades e reaprenda a viver como há três gerações atrás. Ou, em última instância, quem não se mova de onde sempre esteve, mas que mergulhe num isolamento que vislumbra como espécie de última salvação.

Virarmo-nos para um mundo interior, construído à nossa medida, passa de opção a necessidade. Este ruído desenfreado de conteúdos, e por sabê-los muitos deles logros de informação, artifícios que apenas alimentam uma máquina que não pode parar, contraria a nossa necessidade básica da busca do conhecimento. Este é o momento. Desistir do novo conhecimento parece, absurdamente, a solução.

#1

já foi espaço exíguo
o oco formado pelas nossas bocas

 

de que só resta a poeira do esquecimento

 

o inesperado florescer entre pedras

#37

DSC_3599_baixa.jpgWash me away

clean your body of me

erase all the memories

they will only bring us pain

and I've seen all I'll ever need

 

Matthew Bellamy

#35

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 dizes: põe nos meus os teus dedos

e passemos os séculos sem rosto,

apaguemos de nossas casas o barulho

do tempo que ardeu sem luz.

sim, cria comigo esse silêncio

que nos faz nus e em nós acende

o lume das árvores de fruto.

 

Vasco Gato

#32

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 Há por aqui outras paisagens?, perguntam por vezes as crianças.

Eu parto o caminho em pedaços e ofereço-lhes

Serpentinas, serpentinas, que elas recebem como maçãs e papoilas.

Porque tempos houve em que dormíamos nas palavras,

Tempos houve em que fazíamos explodir o tempo.

 

Robert Schindel

#31

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 e à chegada da noite, tépidas brisas

acariciam as árvores. Imaginamo-las os nossos

corpos despidos, dançando nas sombras

#20

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nasce com o rumor dos próprios corpos

com o bater dos nomes entre os ombros

tão dóceis mar de músculos

 

Gastão Cruz

#18

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Trazem as árvores insignificantes

o maior distúrbio aos ventos; arredam-nos,

alçam outros armazéns sonoros

casas de relâmpagos e de cataclismos.

 

Luiza Neto Jorge

#16

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Quando a embriaguez chegar

adormeceremos na montanha selvagem,

o céu por cobertor,

a terra por almofada.

 

Li Bai

#15

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Ficarão para sempre abertas as minhas
salas negras.
Amarrado à noite,
eu canto com um lírio negro sobre a boca.

 

Herberto Helder

#14

CSC_0487.jpgpartir de novo seria tudo esquecer

mesmo a ave que de manhã vem dar asas à boca recente do sonho

mas decidi ficar aqui a olhar sem paixão o lixo dos espelhos

onde a vida e os barcos se cobrem de lodo

 

Al Berto

#11

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 Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te

 no sossego feliz das folhas e das sombras.

Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.

 

António Ramos Rosa

#7

DSC_6822.jpgUma noite apenas -

escrevemos sobre a mão uma casa decisiva.

Depois os dedos são uma floresta restituída à árvore.

 

Jorge Fallorca

#5

DSC_8249.jpg(já não chego à claridade, nem sequer para a não ver: o mundo está todo partido.

Ando por paisagens cheias de zonas de incerteza)

 

Rui Nunes

#3

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 Deve ser o mendigo à minha porta
  e a casa posta à venda.
Devo ser o chão que me recebe
  e a árvore que me planta.

 

Daniel Faria

#2

DSC_3718.jpgA manhã que vem depois dessa melodia

é a mesma que nos faz esquecer

os húmidos murmúrios das estações.

 

Catarina Nunes de Almeida

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